Unidentified participant: Sir, concerning individuality you were discussing a moment ago, you’ve often said—been quoted that you’re a literary man—I beg your pardon, you are not a literary man. By implication one might think that you’d prefer the author who is so to speak spontaneous and not always steady against one who’s read all the literature in his culture and [gives] a steady effort to produce, and works on his style. Is that correct […]?
William Faulkner: How do you mean prefer the author, to spend an evening with him or the work he does?
Unidentified participant: The work he does […]
William Faulkner: Now you—
Unidentified participant: […] clear up: do you mean by implication that you prefer the man who writes so to speak spontaneously or the man who studies his style, reads and learns techniques and works out something [totally] […]?
William Faulkner: I would say first that—the the author is not—is of no importance at all, it’s what he writes. It don’t matter who wrote it. If—and—to—if you mean prefer him as an individual, then I will take the former because the intellectual man and I wouldn’t have anything to talk about. But the man has—has very little to do with his work in my opinion. The work is the thing. It don’t matter who wrote it.
Unidentified participant: Well then let’s say it’s work, [which type of work do you prefer]?
William Faulkner: Well, I think that some people must be intellectual, must be interested, immersed in—in his craft, in literature, to write, to do the work. Other people must be immersed in something completely different. They must in a sense lead a Jekyll and Hyde existence to do the work. It’s the work that matters. It’s not how he did it.
7 de dezembro de 2014
5 de dezembro de 2014
2 de dezembro de 2014
1 de dezembro de 2014
nasci à sombra dos ciprestes, impenetráveis, cujo interior maciço se encontra repleto de ninhos. descobri que era uma mulher porque em tudo encontrei sinais do amor, para logo perceber que um imenso coro de vozes falava em meu lugar, mas nunca dele. a esperança, conheço-a, como uma violência sem redenção. defendo os
segredos que me foram confiados e não os revelo senão àqueles que podem
compreendê-los. vivo agora num lugar abençoado sobre a terra, onde os amigos são sombrios e silenciosos, impassíveis e frágeis. um lugar esquecido, onde nada existe para além da fraternidade, ela própria secreta e perecível.
30 de novembro de 2014
O prestígio é uma armadilha dos nossos
semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo.
Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós.
Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes
respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que
somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por
nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.
Herberto Helder, entrevista publicada no Jornal de Letras e Artes n.º 139, de 17 de Maio de 1964.
Herberto Helder, entrevista publicada no Jornal de Letras e Artes n.º 139, de 17 de Maio de 1964.
29 de novembro de 2014
A escolha de um leitor
Primeiro, desejaria que ela fosse bonita,
e que se aproximasse com cuidado da minha poesia
no momento mais solitário de certa tarde,
com o cabelo junto ao pescoço ainda húmido
de o ter lavado. Ela deveria estar com
uma gabardina, velha, suja
por não ter dinheiro suficiente para a lavandaria.
Ela retirará os óculos, e ali
na livraria, folheará
os meus poemas, devolvendo então o livro
à prateleira. Dirá para si mesma,
"Por este dinheiro, posso mandar
limpar a gabardina." E assim fará.
Ted Kooser
Primeiro, desejaria que ela fosse bonita,
e que se aproximasse com cuidado da minha poesia
no momento mais solitário de certa tarde,
com o cabelo junto ao pescoço ainda húmido
de o ter lavado. Ela deveria estar com
uma gabardina, velha, suja
por não ter dinheiro suficiente para a lavandaria.
Ela retirará os óculos, e ali
na livraria, folheará
os meus poemas, devolvendo então o livro
à prateleira. Dirá para si mesma,
"Por este dinheiro, posso mandar
limpar a gabardina." E assim fará.
Ted Kooser
antigamente, diz-se, as madrugadas eram negras
e os cães farejavam ansiosos o prado
o trigal
até chegarem perto das casas
porém sem nunca atravessarem certo limite
imaginário para nós
que as habitávamos
na desconfiança dessa proximidade nula
embora sentindo o calor do seu faro
e conscientes do orvalho pousado sobre o pelo
durante a noite
não podíamos saber se eram cegos
se atrás da córnea azul e branca dos seus olhos
podiam ver os vultos que nos preenchem
e que nós próprios não podemos ver
por sermos cegos
e territoriais
nas varandas das casas.
os nossos gestos eram brutais
transparentes, magnânimos
os cães desapareciam
e tudo o mais era esperar pelos cães
pela próxima madrugada
abençoadamente negra
com o silêncio à volta
não se sabe se a expandir-se se a invadir
pois era completo e se omitia
o que me lembra que os cães não ladravam
nunca ladravam
farejavam
e as pessoas nas varandas nunca falavam
esperavam sem qualquer desespero
eram imprudentes
enraizadas nas suas incógnitas
nunca diziam sim
nunca diziam não.
não se sabe porque os cães deixaram de aparecer no horizonte
talvez porque os trigais fossem secando
e a enxada não voltasse à terra
e de uma madrugada negra, impiamente pura
viesse um nome
num momento em que ninguém estava à varanda
em silêncio, omitindo-se,
à espera.
a civilização é isto
cresceu destas varandas diante de trigais vislumbrados em manhãs negras
onde cães vadios entravam para farejar
sem se aproximarem
cresceu procurando andar para trás
para trás para trás para trás
para ouvir o nome que por fim chegou numa madrugada
e que apenas o silêncio ouviu
e omitiu.
e os cães farejavam ansiosos o prado
o trigal
até chegarem perto das casas
porém sem nunca atravessarem certo limite
imaginário para nós
que as habitávamos
na desconfiança dessa proximidade nula
embora sentindo o calor do seu faro
e conscientes do orvalho pousado sobre o pelo
durante a noite
não podíamos saber se eram cegos
se atrás da córnea azul e branca dos seus olhos
podiam ver os vultos que nos preenchem
e que nós próprios não podemos ver
por sermos cegos
e territoriais
nas varandas das casas.
os nossos gestos eram brutais
transparentes, magnânimos
os cães desapareciam
e tudo o mais era esperar pelos cães
pela próxima madrugada
abençoadamente negra
com o silêncio à volta
não se sabe se a expandir-se se a invadir
pois era completo e se omitia
o que me lembra que os cães não ladravam
nunca ladravam
farejavam
e as pessoas nas varandas nunca falavam
esperavam sem qualquer desespero
eram imprudentes
enraizadas nas suas incógnitas
nunca diziam sim
nunca diziam não.
não se sabe porque os cães deixaram de aparecer no horizonte
talvez porque os trigais fossem secando
e a enxada não voltasse à terra
e de uma madrugada negra, impiamente pura
viesse um nome
num momento em que ninguém estava à varanda
em silêncio, omitindo-se,
à espera.
a civilização é isto
cresceu destas varandas diante de trigais vislumbrados em manhãs negras
onde cães vadios entravam para farejar
sem se aproximarem
cresceu procurando andar para trás
para trás para trás para trás
para ouvir o nome que por fim chegou numa madrugada
e que apenas o silêncio ouviu
e omitiu.
28 de novembro de 2014
27 de novembro de 2014
No momento em que Júlia se levanta depois de apanhar o jornal do chão,
um sol inesperado surge entre duas nuvens cinzentas de grande densidade, quase negras no cabo. Sem
intervalo, ofuscada pelo clarão, recomeça a caminhar. O passeio de cimento ecoa por baixo dos seus tacões mas as silhuetas que vislumbra adiante são vagas, talvez nem sejam reais. Poderá
ser esta a visão de uma outra cidade, outra vida, outra Júlia, pensa, que por existirem apenas para si, têm de ser provadas. Fica agora muito atenta a essas formas de
luz que a cegam, ela própria sentindo o privilégio pela oportunidade de poder comprovar a sua existência, muito embora esta surja à beira da opacidade e permaneça portanto incerta. Continua a descer a avenida. Repara que as novas
formas são acompanhadas por novos sons, mais intensos, mais minuciosos,
mais cristalinos e a descoberta fá-la sorrir ligeiramente, involuntariamente. Logo depois
desconfia do seu prazer. Júlia desconfia da beleza tanto quanto
desconfia da erudição ou do poder, pois a dedicação excessiva que
exigem parece não poder prescindir da ilusão do seu monopólio, e assim
resultar invariavelmente em embrutecimento. Enquanto hesita, as formas retomam lentamente os contornos familiares. Júlia aperta o jornal na
mão porque o seu coração se encolhe e olha para o céu que, sem que o tivesse visto, voltou a
estar negro. Retorna agora a si, relembra de onde veio, o que faz, para
onde vai, o seu nome, tal como se lesse uma partitura, surpreendendo-se finalmente ao perceber que no conjunto da melodia, a sonoridade dessas notas é justamente a menos audível.
26 de novembro de 2014
Quase
Não sei o que é mais grave
atrever-me a escrever esta linha
ou atrever-me a viver
sabendo que a tinta desaparece
e o sangue seca
e nenhum guarda vestígios
talvez só uma mancha disforme
no chão da cozinha
uma memória do que nunca foi
nem podia ter sido
o mundo é feito de silêncio
entre os seres
quebrar esse pacto
é construir um espaço de solidão.
Fábio Neves Marcelino
Não sei o que é mais grave
atrever-me a escrever esta linha
ou atrever-me a viver
sabendo que a tinta desaparece
e o sangue seca
e nenhum guarda vestígios
talvez só uma mancha disforme
no chão da cozinha
uma memória do que nunca foi
nem podia ter sido
o mundo é feito de silêncio
entre os seres
quebrar esse pacto
é construir um espaço de solidão.
Fábio Neves Marcelino
24 de novembro de 2014
Para os usos correntes da vida, os gestos da mão emprestaram ímpeto à linguagem, ajudaram a articulá-la, a distinguir os seus elementos, a isolá-los de um vasto sincretismo simbólico, a ritmá-la e mesmo a colori-la de inflexões subtis. Dessa mímica da fala, dessas trocas entre a voz e as mãos,
resta alguma coisa daquilo a que os antigos chamavam de ação oratória.
Henri Focillon, Elogio da mão.
resta alguma coisa daquilo a que os antigos chamavam de ação oratória.
Henri Focillon, Elogio da mão.
Subscrever:
Comentários (Atom)
