Monstros fabulosos
Continuo a pensar muito em pássaros. Estou a ler
A Conferência dos Pássaros, um livro sobre a natureza humana escrito, em 1177, por Farid al-Din Attar, a que fui dar por querer saber quem era a Simurgh, uma criatura alada, retratada na arte iraniana na forma de um pássaro grande o suficiente para carregar um elefante ou uma baleia. Parece uma mistura de pavão com águia ou falcão, e garras de leão. Por vezes tem uma cabeça de cão, mas aparece também com um rosto humano, como a esfinge. E é uma fêmea. Também voltei a pensar na Fénix, ave com que muitos de nós criamos uma identificação por termos passado pelo inferno e sobrevivido, mas também porque desejamos erguer-nos acima da mediocridade e ser únicos.
A Fénix é uma ave da Arábia, assim chamada quer porque a sua plumagem é de um tom púrpura-fenício, quer porque existe apenas um exemplar da sua espécie em todo o mundo. Vive mais de quinhentos anos e dizem que, na floresta, era ignorada pelos outros animais. Uma ave silenciosa, pequena, muito velha, que passava o seu tempo a observar tudo o que a rodeava. Quando percebe que envelheceu, constrói uma pira funerária para si própria com pequenos ramos de plantas aromáticas e, virando-se para os raios do Sol e batendo as asas, canta pela primeira vez, atiça deliberadamente as chamas e é consumida pelo fogo. Mas, ao nono dia, a Fénix renasce das suas próprias cinzas.
A pintura com que acabo este texto é de John William Waterhouse, foi terminada em 1891, e tem o título Ulisses e as sereias. Representa o episódio XII da Odisseia, em que Homero descreve o encontro de Ulisses — que sai da ilha de Circe, a feiticeira, e entra no Mediterrâneo a caminho de Ítaca — com as sereias. Tendo sido avisado por ela sobre o perigoso canto das sereias, que até o vento enfeitiçava e atraía marinheiros para a morte, Ulisses tapa os ouvidos dos seus companheiros com cera e pede-lhes para o amarrarem ao mastro do navio para poder ouvir o canto sem lhe sucumbir. Watherhouse pinta a cena recuperando a forma original das sereias — seres híbridos de mulheres e pássaros, com asas de penas negras —, apesar de a representação mais comum, com origem na Idade Média, as retratar como ninfas graciosas com rabos de peixe em vez de pernas.
Dois mil e setecentos anos depois de Homero descrever a cena, Kafka recupera o encontro de Ulisses com as sereias indo porém mais longe: é possível resistir com um ardil ao poder de sedução das sereias, mas a realidade é que não é o canto a arma mais letal que possuem. Isto é o que Kafka escreve:
“Acontece que as sereias têm uma arma ainda mais terrível que o canto — o seu silêncio. Na verdade nunca aconteceu, mas é perfeitamente plausível imaginar que alguém se pudesse salvar do seu canto. Do seu silêncio, certamente que não. Nada de terreno pode resistir à sensação de as ter vencido com as próprias forças, à arrogância que, na sequência disso, tudo derrubaria.”
Muito para além do que o que quer que a sua voz pudesse exprimir, diz Kafka, a própria insolência de sequer se pensar que seria possível vencê-las basta para salvaguardar a sua existência. Herói ou não, também Ulisses terá de o reconhecer.
Hoje, quando pensamos em sereias, imaginamo-las numerosas, um grupo de mulheres-peixe de excecional beleza que assome do fundo do oceano para atrair os homens contra os rochedos, eles capazes de um encantamento ainda mais poderoso do que o delas e que pode levá-las à perdição de uma paixão impossível, mas a origem das sereias caiu na obscuridade. A primeira vez que a menção surge é neste episódio da Odisseia, no século VIII a.C., mas posteriormente há várias referências às sereias. O pai é o rio Aqueloo (ou Aspropótamo, o “rio branco”), o rio mais longo da Grécia, com 220km, que nasce no Egito e desagua no mar Jónico. O seu número, embora sempre plural, é referido como sendo de duas a oito. Na Odisseia, Homero nada diz sobre a sua origem ou nomes, mas dá o número das sereias: duas.
Parténope e Ligeia eram mulheres deslumbrantes que faziam parte do séquito de Perséfone. Quando Hades, apaixonado, rapta Perséfone para viver com ele no submundo, as duas irmãs pedem aos deuses asas para a procurarem por terra, céu e mar.
Depois dele, em 1922, Joyce reinventa a odisseia de dez anos de Ulisses no relato de um só dia, o dia 16 de junho de 1904, em que Leopold Bloom atravessa Dublin de regresso a casa, no número sete da Rua Eccles, e à sua mulher, Molly Bloom. O capítulo onze, intitulado Sereias, passa-se no bar do Ormond Hotel, com as sedutoras Mina Kennedy e Lydia Douce, as duas empregadas do bar, e Bloom como a figura errante.
Em inglês existem duas palavras para designar as sereias: siren, do grego Σειρήν, que é a palavra usada por Homero, e mermaid — de mere, com o sentido de limite ou fronteira bem como de lago e mar, e de maid, uma donzela solteira, ou seja, virgem. Mermaid seria por isso a virgem do mar. No capítulo onze, esta é a palavra usada por Joyce.
Todo o capítulo está estruturado musicalmente, não apenas com canções, mas também com muitos outros sons, humanos e mundanos, como que organizando uma orquestra para dar vários cambiantes de tonalidades numa escala musical e produzindo variações em torno de um mesmo tema: a transitoriedade. O capítulo onze do Ulysses é uma fuga. Há uma alegria jocosa e obscena nas conversas (o que há de mais transitório que o gozo?) e uma convergência entre os prolíferos acontecimentos e a consciência de Bloom. O desejo, ilusões terapêuticas, gases, a esperança, a vanidade, tudo passa, tudo concorre avidamente para o seu fim, mesmo que, como a música, possuam cada um a sua lógica e a sua intensidade arrebatadoras. Bloom sai do bar como se abandonasse um navio carregado de nostalgia e abdicando dela tanto quanto do sentido de cada uma das coisas que ali o levaram.
Há ainda uma outra característica semântica para a palavra sereia: σειρά (seirá) significa corda, cordão, laço, liame ou também armadilha. É um nome que evoca beleza, mistério e poder femininos, e que se une a εἴρω (eírō), isto é, amarrar, unir, prender. O nome que daí resulta tem o significado de «enredador», ou seja, aquele que liga ou enreda, prende, que envolve ou amarra de forma sedutora — aquele que tece enredos e intrigas: um escritor.
Estaria Homero a pensar nisso quando decide amarrar Ulisses para resistir às sereias? Encontrei ainda uma outra referência etimológica de que quero falar. Parece que Homero escolhe para amarrar Ulisses não propriamente o mastro do barco, o ιστός, mas o ιστοπέδῃ (Canto XII, v.179), ou seja, a parte onde o mastro encaixa. Em português, o nome que se dá a esse encaixe é carlinga, um entalhe que fica abaixo do convés. Ulisses nunca esteve exposto ao olhar e à beleza das sereias. Digamos que, canções ou silêncio, o que quer que tenha ouvido fê-lo através da coluna da aparelhagem, não ao vivo.
“Mousikē — diz um verso de Hesíodo — refere-se a pequenos rituais de esquecimento sobre o desgosto. O desgosto é para a alma na qual se depositam as lembranças o que o depósito é para a ânfora que contém o vinho. Tudo o que podemos desejar é que repouse. Na Grécia Antiga, a musa da mousikē chamava-se Erato. Era uma profetisa de Pã, o deus do pânico, viajando no transe sob o efeito da bebida e do consumo de carne humana. Os xamanes eram inspirados pelos animais, os sacerdotes pelos homens sacrificados, os poetas pelas musas. Sempre vítimas. As obras, por modernas que pretendam ser, estão sempre desatualizadas em relação ao tempo que as acolhe ou que as rejeita. Sempre, inspiradas por «panicados». Os panicados, acompanhados por tirsos xamânicos, flautas de Pã e cânticos roucos miméticos, em latim os bacchatio, consistiam em matar um jovem homem despedaçando-o vivo e comendo-o cru de imediato. Orfeu é comido cru. A musa Euterpe leva uma flauta à sua boca. Aristóteles diz na Política que a musa tem a boca ocupada e as mãos ocupadas exatamente como uma prostituta que, com a ajuda dos seus lábios e dos seus dedos, enche a physis do seu cliente a fim de a levar abaixo do seu ventre, para que ele lance a sua semente. As obras (as opera) não são o feito de homens livres. Tudo o que opera está ocupado. É a «preocupação» do desgosto. Em francês o «souci» . É o depósito da ânfora: o cadáver, o morto próprio ao vinho.” (Pascal Quignard, La Haine de la Musique.)
Que som produzem estes monstros? Porque é o seu canto irresistível? Podiam ter sido transformados na coisa mais vulgar do mundo, e porém, um som que enlouquece. O que torna estes monstros fabulosos é o que, para lá de toda a lógica e mesmo contra ela, lhes dá forma: o seu desgosto.