25 de agosto de 2026

A derrota sucessiva de todos os meus espantos


Uma semana na cidade onde nasci. Caminho em ruas conhecidas que desembocam em ruas que as obras, as construções e as demolições desfiguraram e me devolvem com dureza a imagem de acontecimentos importantes cujo cenário desapareceu totalmente. Há muitas casas em ruínas, algumas semi-demolidas para precaver desabamentos no passeio. Há ruas onde me custa passar porque me apetece ficar, ruas onde passo vagarosamente para observar e outras onde passo a correr, suspendendo a respiração para não ser contaminada por nenhuma memória. De porta em porta, a constatação infeliz de que o comércio no centro histórico continua a fechar é partilhada com o espanto da sobrevivência de lojas que permanecem iguais há trinta anos e mais. As lojas abandonadas, cujas montras foram tapadas com jornais desbotados do início do século, não foram substituídas, nada apareceu no lugar delas, nem outros negócios nem casas, e dão às ruas a aura de uma cidade fantasma.

O rio vai cheio. Está quase a transbordar depois das chuvas deste inverno. A água é verde e branca, opaca, como se as mulheres ainda viessem lavar. Aceno ao meu cunhado quando os nossos olhares inesperadamente se encontram após uma esquina, através de uma janela: eu na rua e sem destino, ele no seu escritório a trabalhar desde cedo. O sentimento consolador de poder ver a minha família todos os dias e a qualquer hora é tão raro que me parece que a cidade é toda nossa. 

Tenho prazer em percorrer a cidade a pé, mas não quero cruzar-me com ninguém. As conversas apressadas e aborrecidas — abomino o afã que leva ao lugar comum — com pessoas com quem não convivo há anos limitam-se quase todas aos tradicionais votos de fim de ano ou aos inquéritos eternamente reproduzidos que se revestem de uma consternadora hesitação: dirigem-se a uma fulgurante adolescente com um auspicioso futuro e colidem com uma mulher com cabelos brancos, solteira e sem filhos. Um amigo de quem me afastei ainda antes de sair daqui chora com a frieza da minha resposta à incompreensível exigência «porque é que nunca apareces?» Não me comovo e já não fico assustada por não me comover. Enquanto me afasto, gozo o consolo de talvez ter conseguido resolver a coisa pela raiz. 

Bloqueio o cartão do telemóvel e, enquanto procuro pelo cartão com os códigos, encontro uma carta de uma amiga com quem deixei de ter relações. Datada de 2001, a carta fala de mim e de como ela se sente próxima de mim na minha desorientação, na minha tristeza. De como gostaria de tentar tocar-me «num momento mau». Esta carta, perdida entre papéis onde não mexia há vinte anos, é um sinal de uma pessoa com quem partilhei a mais desarmada intimidade e que já não existe para mim, que não conheço. Tenho a tentação de a fechar mal a abro e reconheço a assinatura, mas uma força mórbida puxa-me e dou por mim a fazer um esforço para a ler. Sinto que o mundo pára nesse momento. Estou com ela, uma vez mais. Quando termino, é como se uma dura consciência, muito viva, me tivesse apanhado: vejo a realidade como dupla, ela e o seu avesso, a vida e a sua sombra. Um pequeno momento de alegria é atravessado pela noção de que será interrompido, quem sabe se será o último. Caio numa vaga lânguida. Fecho a carta e não vejo ninguém na minha sintonia. Que animal verá assim?

Uma semana, uma missa de sétimo dia, um funeral e a notícia de outro a que não cheguei a tempo. Enquanto abraço antigas colegas de escola, percebo com indiferença que o inconformismo que me separava dos outros desapareceu. No cemitério, a minha irmã conduz-me à campa dos meus avós e nas suas fotografias, os rostos familiares e vivos confundem-me, não restando à repulsa inexprimível mais do que vomitar umas quantas lágrimas grossas que já não sei o que significam. Outros mortos — que fui eu que matei bem matados, ao longo de muito tempo e com as minhas próprias mãos —, a contingência me força a encontrar sempre que venho. Aqui, não há escolhas. 

Vou arrancando a alegria a um corpo arrebatado pela deriva. Quem fui eu? A que quis partir. Resta alguma coisa? 

No Instagram, onde publico fotografias dos meus passeios, recebo mensagens que elogiam a beleza da paisagem. Onde estava esta beleza quando cá vivi? Por muito que me esforce, o que assome é desolação. A inundação da biblioteca e o posterior encerramento por mais de uma dezena de anos, o incêndio no jardim-infantil, o fogo estival na serra, o fecho do Cineteatro Virgínia logo após a primeira ida ao cinema, cujos escombros me fixaram até à partida, o salão de jogos com a máquina de Tetris e as mesas de Snooker de onde saía carcomida pela solidão, o Trampolim, um café onde dançava até ser manhã e hoje não sou capaz de entrar, e opressão, opressão, opressão que me esperou ao raiar desde que me lembro e de que me despedia diante de uma estrela que brilhava mais à frente da janela do meu quarto, à qual todos os dias prometi sair dali mal conseguisse. Enquanto revisito mais um lugar, lembro-me que é sobre isto que escrevo. Sobre tudo isto, sobre este lugar. A derrota sucessiva de todos os meus espantos trouxe-me aqui, a um apagamento que não tenho qualquer intenção de reparar.

 

 Torres Novas, 2020.
 

Espectografia para Projeto GHOST — Espectralidade: Literatura e Artes, um projeto de investigação do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição da NOVA FCSH.

12 de agosto de 2026

"Devient un mot hors d’usage."

Pascal Quignard, Les désarçonnés.

24 de julho de 2026

La nuit n’est jamais complète
Il y a toujours
Puisque je le dis
Puisque je l’affirme
Au bout du chagrin
Une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un cœur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.

Paul Eluard

12 de maio de 2026

Il existe dans la philosophie et dans la littérature contemporaines une exaltation du silence. Le secret, le mystère, l’insondable profondeur d’un monde sans paroles ensorcelant. Bavardage, indiscrétion, prétention — la parole rompt ce charme. On oublie volontiers que, lieu naturel de la paix et de "l’harmonie des sphères", le silence est aussi l’eau stagnante, l’eau qui dort où croupissent les haines, les desseins sournois, la résignation et la lâcheté. On oublie le silence pénible et pesant ; celui qui émane de ces "espaces infinis" […]. On oublie l’inhumanité d’un monde silencieux. 
 
Emmanuel Lévinas, Œuvres complètes, "Parole et Silence" (2009).
 
Enviado pelo A. 

29 de abril de 2026

resgatado do naufrágio
da minha retórica silenciosa,
o amor 

17 de março de 2026

Monstros fabulosos 


Continuo a pensar muito em pássaros. Estou a ler A Conferência dos Pássaros, um livro sobre a natureza humana escrito, em 1177, por Farid al-Din Attar, a que fui dar por querer saber quem era a Simurgh, uma criatura alada, retratada na arte iraniana na forma de um pássaro grande o suficiente para carregar um elefante ou uma baleia. Parece uma mistura de pavão com águia ou falcão, e garras de leão. Por vezes tem uma cabeça de cão, mas aparece também com um rosto humano, como a esfinge. E é uma fêmea. Também voltei a pensar na Fénix, ave com que muitos de nós criamos uma identificação por termos passado pelo inferno e sobrevivido, mas também porque desejamos erguer-nos acima da mediocridade e ser únicos.
 
A Fénix é uma ave da Arábia, assim chamada quer porque a sua plumagem é de um tom púrpura-fenício, quer porque existe apenas um exemplar da sua espécie em todo o mundo. Vive mais de quinhentos anos e dizem que, na floresta, era ignorada pelos outros animais. Uma ave silenciosa, pequena, muito velha, que passava o seu tempo a observar tudo o que a rodeava. Quando percebe que envelheceu, constrói uma pira funerária para si própria com pequenos ramos de plantas aromáticas e, virando-se para os raios do Sol e batendo as asas, canta pela primeira vez, atiça deliberadamente as chamas e é consumida pelo fogo. Mas, ao nono dia, a Fénix renasce das suas próprias cinzas.
 
A pintura com que acabo este texto é de John William Waterhouse, foi terminada em 1891, e tem o título Ulisses e as sereias. Representa o episódio XII da Odisseia, em que Homero descreve o encontro de Ulisses — que sai da ilha de Circe, a feiticeira, e entra no Mediterrâneo a caminho de Ítaca — com as sereias. Tendo sido avisado por ela sobre o perigoso canto das sereias, que até o vento enfeitiçava e atraía marinheiros para a morte, Ulisses tapa os ouvidos dos seus companheiros com cera e pede-lhes para o amarrarem ao mastro do navio para poder ouvir o canto sem lhe sucumbir. Watherhouse pinta a cena recuperando a forma original das sereias — seres híbridos de mulheres e pássaros, com asas de penas negras —, apesar de a representação mais comum, com origem na Idade Média, as retratar como ninfas graciosas com rabos de peixe em vez de pernas.

Dois mil e setecentos anos depois de Homero descrever a cena, Kafka recupera o encontro de Ulisses com as sereias indo porém mais longe: é possível resistir com um ardil ao poder de sedução das sereias, mas a realidade é que não é o canto a arma mais letal que possuem. Isto é o que Kafka escreve:
 
“Acontece que as sereias têm uma arma ainda mais terrível que o canto — o seu silêncio. Na verdade nunca aconteceu, mas é perfeitamente plausível imaginar que alguém se pudesse salvar do seu canto. Do seu silêncio, certamente que não. Nada de terreno pode resistir à sensação de as ter vencido com as próprias forças, à arrogância que, na sequência disso, tudo derrubaria.”
 
Muito para além do que o que quer que a sua voz pudesse exprimir, diz Kafka, a própria insolência de sequer se pensar que seria possível vencê-las basta para salvaguardar a sua existência. Herói ou não, também Ulisses terá de o reconhecer.
 
Hoje, quando pensamos em sereias, imaginamo-las numerosas, um grupo de mulheres-peixe de excecional beleza que assome do fundo do oceano para atrair os homens contra os rochedos, eles capazes de um encantamento ainda mais poderoso do que o delas e que pode levá-las à perdição de uma paixão impossível, mas a origem das sereias caiu na obscuridade. A primeira vez que a menção surge é neste episódio da Odisseia, no século VIII a.C., mas posteriormente há várias referências às sereias. O pai é o rio Aqueloo (ou Aspropótamo, o “rio branco”), o rio mais longo da Grécia, com 220km, que nasce no Egito e desagua no mar Jónico. O seu número, embora sempre plural, é referido como sendo de duas a oito. Na Odisseia, Homero nada diz sobre a sua origem ou nomes, mas dá o número das sereias: duas. 
 
Parténope e Ligeia eram mulheres deslumbrantes que faziam parte do séquito de Perséfone. Quando Hades, apaixonado, rapta Perséfone para viver com ele no submundo, as duas irmãs pedem aos deuses asas para a procurarem por terra, céu e mar. 
 
Depois dele, em 1922, Joyce reinventa a odisseia de dez anos de Ulisses no relato de um só dia, o dia 16 de junho de 1904, em que Leopold Bloom atravessa Dublin de regresso a casa, no número sete da Rua Eccles, e à sua mulher, Molly Bloom. O capítulo onze, intitulado Sereias, passa-se no bar do Ormond Hotel, com as sedutoras Mina Kennedy e Lydia Douce, as duas empregadas do bar, e Bloom como a figura errante.
 
Em inglês existem duas palavras para designar as sereias: siren, do grego Σειρήν, que é a palavra usada por Homero, e mermaid — de mere, com o sentido de limite ou fronteira bem como de lago e mar, e de maid, uma donzela solteira, ou seja, virgem. Mermaid seria por isso a virgem do mar. No capítulo onze, esta é a palavra usada por Joyce. 
 
Todo o capítulo está estruturado musicalmente, não apenas com canções, mas também com muitos outros sons, humanos e mundanos, como que organizando uma orquestra para dar vários cambiantes de tonalidades numa escala musical e produzindo variações em torno de um mesmo tema: a transitoriedade. O capítulo onze do Ulysses é uma fuga. Há uma alegria jocosa e obscena nas conversas (o que há de mais transitório que o gozo?) e uma convergência entre os prolíferos acontecimentos e a consciência de Bloom. O desejo, ilusões terapêuticas, gases, a esperança, a vanidade, tudo passa, tudo concorre avidamente para o seu fim, mesmo que, como a música, possuam cada um a sua lógica e a sua intensidade arrebatadoras. Bloom sai do bar como se abandonasse um navio carregado de nostalgia e abdicando dela tanto quanto do sentido de cada uma das coisas que ali o levaram.
 
Há ainda uma outra característica semântica para a palavra sereia: σειρά (seirá) significa corda, cordão, laço, liame ou também armadilha. É um nome que evoca beleza, mistério e poder femininos, e que se une a εἴρω (eírō), isto é, amarrar, unir, prender. O nome que daí resulta tem o significado de «enredador», ou seja, aquele que liga ou enreda, prende, que envolve ou amarra de forma sedutora — aquele que tece enredos e intrigas: um escritor.
 
Estaria Homero a pensar nisso quando decide amarrar Ulisses para resistir às sereias? Encontrei ainda uma outra referência etimológica de que quero falar. Parece que Homero escolhe para amarrar Ulisses não propriamente o mastro do barco, o ιστός, mas o ιστοπέδῃ (Canto XII, v.179), ou seja, a parte onde o mastro encaixa. Em português, o nome que se dá a esse encaixe é carlinga, um entalhe que fica abaixo do convés. Ulisses nunca esteve exposto ao olhar e à beleza das sereias. Digamos que, canções ou silêncio, o que quer que tenha ouvido fê-lo através da coluna da aparelhagem, não ao vivo.
 
Mousikē — diz um verso de Hesíodo — refere-se a pequenos rituais de esquecimento sobre o desgosto. O desgosto é para a alma na qual se depositam as lembranças o que o depósito é para a ânfora que contém o vinho. Tudo o que podemos desejar é que repouse. Na Grécia Antiga, a musa da mousikē chamava-se Erato. Era uma profetisa de Pã, o deus do pânico, viajando no transe sob o efeito da bebida e do consumo de carne humana. Os xamanes eram inspirados pelos animais, os sacerdotes pelos homens sacrificados, os poetas pelas musas. Sempre vítimas. As obras, por modernas que pretendam ser, estão sempre desatualizadas em relação ao tempo que as acolhe ou que as rejeita. Sempre, inspiradas por «panicados». Os panicados, acompanhados por tirsos xamânicos, flautas de Pã e cânticos roucos miméticos, em latim os bacchatio, consistiam em matar um jovem homem despedaçando-o vivo e comendo-o cru de imediato. Orfeu é comido cru. A musa Euterpe leva uma flauta à sua boca. Aristóteles diz na Política que a musa tem a boca ocupada e as mãos ocupadas exatamente como uma prostituta que, com a ajuda dos seus lábios e dos seus dedos, enche a physis do seu cliente a fim de a levar abaixo do seu ventre, para que ele lance a sua semente. As obras (as opera) não são o feito de homens livres. Tudo o que opera está ocupado. É a «preocupação» do desgosto. Em francês o «souci» . É o depósito da ânfora: o cadáver, o morto próprio ao vinho.” (Pascal Quignard, La Haine de la Musique.)
 
Que som produzem estes monstros? Porque é o seu canto irresistível? Podiam ter sido transformados na coisa mais vulgar do mundo, e porém, um som que enlouquece. O que torna estes monstros fabulosos é o que, para lá de toda a lógica e mesmo contra ela, lhes dá forma: o seu desgosto.
 

8 de março de 2026

 

O Julgamento pelo Fogo de Siyavush, herdeiro do trono da Pérsia, miniatura persa atribuída a Abd-ol-Vahab. Do Shahnama de Firdausi [Épico dos Reis], primeira metade do século XVI.

15 de janeiro de 2026

 
 
a primeira vez que a vi foi num museu improvisado nas antigas instalações da rodoviária, que encerrou nos anos 90 e foi para um novo parque de estacionamento perto do cemitério, à saída da Vila. era um museu sem paredes lá dentro, escuro, com pó sedimentado, e em que, contudo, muitas vezes penso e tenho saudades de visitar. chamava-se Museu Etnográfico de Torres Novas. foi como fiquei a saber o que era a etnografia: por ver o nome, que não conhecia, impresso numa tela gigante e mal suspensa nos antigos portões das traseiras da garagem, que agora estavam desativados. e foi ali, por causa da etnografia, que fiquei a saber quem eu era, de onde vinha e como se tinha vivido naquela terra de figueiras com um castelo no meio e um rio por baixo. ferramentas agrícolas, trajes de mulher e de homem, de crianças, sapatos, brinquedos, objetos que se produziam e que se usavam, muitos que eu nunca tinha visto, muitos ainda cobertos de ferrugem, gordura ou simplesmente encarquilhados pelo tempo recheavam o interior do edifício e eram cuidados, e explicados, pelas mulheres que ali andavam, sorridentes, amáveis e disponíveis, que imediatamente, mal mostrássemos interesse, demonstravam possuir um conhecimento profundo sobre cada um deles. numa outra área reuniam-se peças de arqueologia industrial, carros, máquinas — em que tinha menos interesse, e julgo que por isso por lá não terei passado mais de duas vezes, sempre com o desprazer de me sentir esmagada não só pela sua dimensão, mas também, e talvez sobretudo, pela sua imobilidade, ela própria parecendo obsoleta. cristalizadas no arcaísmo da sua irrelevância, ao contrário da fotografia, as máquinas calavam-se.

num ano qualquer, ao regressar, dei com ele fechado. o espólio havia sido transferido para um pavilhão afastado do centro da cidade, que estava — e está — encerrado ao público, embora na altura se tenha dito que seria para reabrir. nisto terão passado 20 anos? mais? mas continua fechado e, aparentemente, ao que se diz na Vila, ao abandono, tanto a estrutura do edifício, de resto icónico para o lugar, como também esse valioso património etnográfico que aí ficou armazenado. 

esta fotografia — muito maior pois lhe faltam as margens — é uma fotografia das trabalhadoras da Companhia Nacional de Fiação e Tecidos de Torres Novas. tinha um magnetismo avassalador: o olhar das trabalhadoras, ao mesmo tempo duro e presente, despia-nos, atraindo-nos com uma vulnerabilidade impetuosa e possante. começava-se a imaginar as suas condições de vida, a época, as horas, as conversas que haveriam de ter ou não ter tido. havia nela também a grande descoberta de ser uma fotografia apenas com mulheres que trabalhavam, algo que me haviam dito pouco ter existido antes de mim. e no entanto ali estavam: centenas.

a Fábrica, tal como era conhecida, funcionou durante 165 anos na Rua da Fábrica e foi um dos mais importantes centros da atividade laboral da região e do país. nos armazéns Printemps, em Paris, até há pouco tempo, os atoalhados e lençóis mais finos, e mais caros, vinham daí, e nem era preciso ir até Paris para se encontrarem essas preciosidades — na Paris em Lisboa também se vendiam. a Fábrica deu trabalho a mais de 400 trabalhadores na região, muitos deles mulheres. abriu em 1845 e a princípio dedicava-se à produção de artigos básicos, em geral destinados a serem utilizados como matéria-prima pelos seus próprios clientes, como fios de linho, de juta, de algodão ou lonas de algodão. todo o processo de fabrico, desde o fio de algodão até ao produto final, era controlado, e a alta qualidade dos seus produtos tornou-se conhecida. lembro-me de cobiçar toalhas de fantasia e de riscas, toalhas lisas, roupões em tecido turco, quimonos, chinelos, acessórios de banho, lençóis, guardanapos e guardanapos de cocktail, toalhas de mesa, mantas e colchas, fronhas, tapetes de banho, toalhetes, uns realizados em flanela, outros em jacquard, cetim, percal, algodão, linho ou turco, bordados e lisos. em 1881, a Fábrica era uma das 50 maiores empresas da indústria transformadora portuguesa e no início do século seguinte declarou falência e encerrou portas. há muito que havia deixado de se ouvir a sirene, manhã cedo e fim da tarde. tenho saudades do toque da fábrica fiação e tecidos mesmo sem nunca o ter ouvido, do ar fresco, luz oblíqua que o acompanhavam e que, contra a fealdade e a violência, construíam um mundo feito de pormenores inoperantes, comuns.

muito maior do que esta que aqui se vê, dizia, a fotografia, retangular e em tons de cinzento, e não sépia, estava ao fundo do museu, encostada à parede do lado direito. na minha memória, pelo menos, a fotografia era invulgarmente grande, impressa em várias folhas e com as mulheres em tamanho real, entre as quais se encontra a minha bisavó, que é uma das trabalhadoras que nos olha.

3 de janeiro de 2026

8 de dezembro de 2025

When I consider my hand
— A foreign thing related to me —
I stand in no country,
I am neither here nor there
I am not certain of anything.

Hannah Arendt (1924).

1 de dezembro de 2025

"Je vous écris d’un pays lointain. On l’appelle Sibérie. A la plupart d’entre nous, il n’évoque rien d’autre qu’une Guyane gelée, et pour le général tasriste Andréievitch, c’était 'le plus grand terrain vague du monde.' Il y a heureusement plus de choses sur la terre et sous le ciel, fussent-ils sibériens, que n’en ont rêvées tous les généraux. Tout en écrivant, je suis des yeux la frange d’un petit bois de bouleaux, et je me souviens que le nom de cet arbre, en russe, est un mot d’amour: Biriosinka."
 
Chris Marker, Lettre de Sibérie (1957).
 



25 de novembro de 2025

‘Suddenly I heard Virginia’s voice calling to me from the sitting room window: “Hitler is making a speech.” I shouted back, “I shan’t come, I’m planting iris and they will be flowering long after he is dead”.’

Leonard Woolf, Downhill All The Way. 

20 de novembro de 2025

"E então aconteceu qualquer coisa.
O que aconteceu foi isto.
Toda a gente começou a sentir a falta de qualquer coisa e não era de um beijo, aposto a minha vida em como não era de um beijo de que toda a gente começou a sentir a falta. E daí talvez fosse.
De qualquer forma, aconteceu alguma coisa e toda a gente ficou muito excitada por ser alguma coisa e por ter acontecido. Aconteceu lentamente e depois foi acontecendo e a seguir aconteceu um pouco mais depressa e continuou a acontecer e aconteceu e aconteceu na verdade aconteceu e depois tinha acontecido e foi acontecendo e por fim lá estava o acontecimento e se estava é porque estava, mas agora já ninguém se importava.
E tudo isto parece estranho, mas é absolutamente verdade."

Gertrude Stein, Ida.

13 de novembro de 2025

“É preciso arrancar alegria ao futuro.”

Maiakovski