29 de maio de 2015

nunca imaginei que uma ternura infinita como a da infância, uma vez perdida, pudesse voltar a existir. e todavia nunca imaginei senão isso. é de facto de uma grande evidência, que nenhuma outra coisa existe senão esse centro de que nos aproximamos, distanciamos e onde, por vezes, nos é concedido entrar. no labirinto tocamos o insondável mas a sua infinitude não me domesticou. o que se levantou dele, porque pôde, apenas escutou. e eu pude: não pronunciei palavra nem fui iludida por nenhuma revelação. até já não ter nada e poder escutar apenas este silêncio, este mistério.

28 de maio de 2015

25 de maio de 2015

cette petite mélancolie.

24 de maio de 2015

i'm falling down to the center of the earth.
i'm following her to the center of the earth.
i'm going to the center of the earth.

22 de maio de 2015

para h.

ousar pronunciar
as mais insólitas palavras
e me arrebatares de assombro
com o teu sim.
não conheço fantasias.
somos urzes antigas
cuja sombra se tornou ardente
e, exaustas ou preguiçosas,
vigiamos o luxo sem atalhos
do ar imóvel.

21 de maio de 2015

it all will be lost.

18 de maio de 2015

(...) estava vibrando em puro desejo como lhe acontecia antes e depois da menstruação.

Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.
escrevo para me tornar audível. quem não me lê, não me vê. talvez seja também por isso que leio o que escrevo, para que enquanto faço correções, eu me possa ver. mas para que me quero eu ver a mim própria? não há nada aqui para ver, sou um espelho muito fastidioso. é quando me perco e me esqueço de mim que sou feliz. que justa é a escolha da palavra felicidade...
Walk in silence
Don’t walk away, in silence
See the danger
Always danger
Endless talking
Life rebuilding
Don’t walk away

Walk in silence
Don’t turn away, in silence
Your confusion
My illusion
Worn like a mask of self-hate
Confronts and then dies
Don’t walk away

People like you find it easy
Naked to see
Walking on air
Hunting by the rivers
Through the streets
Every corner abandoned too soon
Set down with due care
Don’t walk away in silence
Don’t walk away

Joy Division [Bernard Sumner / Ian Curtis / Peter Hook / Stephen Morris].

17 de maio de 2015


— Está na hora de resumir — disse Bernard. — Chegou a hora de te explicar o sentido da minha vida. Dado não nos conhecemos (se bem que me pareça já te ter encontrado antes, a bordo de um navio que seguia para África), podemos falar com franqueza. Sinto-me possuído pela ilusão de que existe algo que adere durante alguns instantes, é redondo, tem peso, profundidade, está completo. Pelo menos por agora, é assim que sinto a minha vida. Se fosse possível, seria este o presente que te gostaria de oferecer. Arrancá-la-ia como quem arranca um cacho de uvas. Diria: "Toma. É a minha vida".
Mas, infelizmente, não vês aquilo que vejo (este globo, cheio de figuras). Sentado à tua frente está um homem idoso, bastante pesado, cheio de cabelos brancos. Vês-me pegar no guardanapo e desdobrá-lo. Vês-me encher um copo de vinho. E, atrás de mim, vês uma porta por onde as pessoas vão passar. Mas, para te dar a minha vida, para que a possas entender, tenho de te contar uma história
— e se elas são tantas, tantas —, histórias de infância, histórias do tempo da escola, de amores, de casamentos, mortes e assim por diante. Contudo, nenhuma é verdadeira. Mesmo assim, iguais a crianças, vamos contando histórias uns aos outros, e, para as conseguirmos decorar, inventamos estas frases ridículas, rebuscadas, belas. Estou tão cansado de histórias, tão cansado de frases que assentam tão bem! Para mais, detesto projectos de vida concebidos em folhas de blocos de apontamentos! Começo a sentir saudades de um tipo de linguagem semelhante à que é usada pelos amantes, composta por palavras soltas e inarticuladas, semelhantes a pés arrastando-se no caminho. Começo a procurar um conceito que esteja mais de acordo com os momentos de humilhação e triunfo com que sempre acabamos por nos deparar de vez em quando. Deitado numa vala durante um dia de tempestade depois de ter estado a chover, vejo marcharem no céu nuvens grandes e pequenas. Nesses momentos, o que me delicia é a confusão, o peso, a fúria e a indiferença. São nuvens que não param de mover e de se transformar; qualquer coisa de sulfuroso e sinistro, arqueado; ameaçador até ao momento em que se estilhaça e desaparece, e lá estou eu, minúsculo, esquecido, na valeta. É nesses momentos que não consigo encontrar quaisquer vestígios de história, de conceito.

Virginia Woolf, As Ondas.
O meu amor — disse — é para os seres jovens e impetuosos; aqueles que na sua valentia e orgulho se assemelham aos meninos, mas que, todavia, denunciam a delicadeza e a inclinação próprias de uma menina.

Annemarie Schwarzenbach, Ver uma mulher.

13 de maio de 2015

'Competitions are for horses, not artists,' said composer Béla Bartók.
indianos.
caminham de mão dada. ela vai junto à parede, ele do lado da estrada.
ela está ligeiramente escondida atrás dele. vejo a sombra dele projetada sobre o seu corpo.
ele olha para mim quando olho para eles. coloca-se ligeiramente mais à frente dela.
está a protegê-la.
atrás dele, ela olha-me nos olhos e sorri com as entranhas, universalmente. eu vejo o amor dela. e quero escrever sobre isso.

12 de maio de 2015

24 de dezembro de 1929

Ver uma mulher: somente por um segundo, somente no breve lapso de um olhar, para logo voltar a perdê-la, na obscuridade de um corredor, atrás de uma porta que estou proibida de abrir... Ver uma mulher, e sentir nesse mesmo instante que também ela me viu, que os seus olhos inquisitivos se apaixonaram por mim como se não tivéssemos outro remédio senão encontrarmo-nos no umbral do ignoto, dessa fronteira obscura e melancólica da consciência...
Sim, sentir durante esse segundo que também ela está em suspenso, dir-se-ia que dolorosamente interrompida no discorrer dos pensamentos, como se os seus nervos se contraíssem ao contacto com os meus. E eu não estava cansada, não se confundiam dentro de mim as imagens do dia nem contemplava os campos cobertos de neve com as sombras alongadas do entardecer; via a multidão no bar; passavam raparigas, os seus pares de baile levavam-nas como se fossem bonecas, riam com frivolidade inclinando a cabeça para trás por cima dos seus ombros estreitos, entre as suas gargalhadas soava estrondoso o jazz e eu fugia para um pequeno canto; então Li fez-me sinais, o seu pequeno rosto relampagueava branco abaixo das sobrancelhas altas e depiladas. Trouxe o copo na minha direção, obrigando-me, obstinada, a prová-lo e depois apertou o pescoço do norueguês com as suas esbeltas mãos; passou a flutuar diante de mim, dançarinamente, enquanto os olhos dele pendiam dos seus lábios.
Em breve a noite fria de inverno veio ao nosso encontro, Lange caminhava ao meu lado falando um alemão desajeitado. «Deveria ter vergonha! — disse —. Não sabe como são perigosas as raparigas mongóis». Li era mongol, e eu consenti com a cabeça, ainda que ela não fosse perigosa. Um rosto de porcelana que relampagueava debaixo de umas sobrancelhas finamente depiladas e umas mãos brancas, relampagueando também sem cessar, sobre os ombros daqueles varões que a levavam por entre o enxame de gente que dançava... Mas Li sorri!, em torno da sua boca pode haver um temeroso sorriso infantil e eu sei que os homens amam a doçura dessa boca, mas o que é esse sorriso comparado com o dos pequenos seres, loiros e inocentes, que nada pretendem e que de fora, debaixo da luz do sol, vêm ao nosso encontro, ficam a observar-nos e despertam a nossa simpatia ainda que sintamos fadiga e mal estar físico pelo asco que imperceptivelmente a mistura de riso e de hilaridade, de excesso de fumo e de bulício, começa a produzir.
Que agradável é a carícia do ar fresco noturno sobre a minha cara!, tenho até mesmo neve colada aos sapatos. Apercebe-se uma nova luz aqui e ali, alguém leva os meus bastões de esqui, dou a mão a Lange, que sobe apressado a escada. Agora toco o sino; uma vez no interior, o ascensorista fecha a porta nas minhas costas; estou cabisbaixa quando o elevador para no hall. Por um momento o calor e o ruído invadem o recinto, levanto o olhar e vejo uma mulher à minha frente, veste um casaco branco, a sua cara é morena sob o cabelo escuro e penteado para trás com severidade masculina; sou surpreendida pela força bela e luminosa que o seu olhar erradia e encontramo-nos, um segundo, e eu sinto o irresistível impulso de me aproximar dela e, mais amargo e doloroso ainda, o impulso de seguir a impressionante desconhecida, que nasce em mim como uma ânsia e uma ordem.
Baixo o olhar e dou um passo para trás. O elevador detém-se. O botões abre a porta, com um aceno de cabeça quase imperceptível a desconhecida passa diante de mim...

Annemarie Schwarzenbach, Ver uma mulher [tradução nossa].
Eu leio assim este livro: há três coisas que metem medo: a primeira, a segunda e a terceira. A primeira chama-se vazio provocado, a segunda é dito o vazio continuado, e a terceira é também chamada o vazio vislumbrado.
Ora sabe-se que o Vazio não se apoia sobre Nada. Há, assim, três coisas que metem medo.
A primeira é a mutação. Ninguém sabe o que é um homem. Os limites da espécie humana não são consequentemente conhecidos. Podem, no entanto, ser sentidos. O mutante é o fora-de-série, que traz a série consigo. Este livro é um processo de mutantes, fisicamente escorreitos. É um processo terrível. Convém ter medo deste livro.
Há, como disse, três coisas que metem medo. A segunda é a Tradição, segundo o espírito que muda onde sopra. Todos cremos saber o que é o Tempo, mas suspeitamos, com razão, que só o Poder sabe o que é o Tempo: a Tradição segundo a Trama da Existência. Este livro é a história da Tradição segundo o espírito da Restante Vida. Mais uma razão para não o tomarmos a sério.

Maria Gabriela Llansol, O livro das comunidades.

11 de maio de 2015

por detrás da ramagem frondosa, soavam dispersos, como numa alucinação que nem a mais brilhante reflexão poderia esclarecer, o assobiar do vento, o melodioso canto de pássaros e, mais longe, o ruído do trânsito e latidos de cães. A. caminhava em ritmo de passeio e contudo, sem motivo aparente, tinha o corpo coberto por uma fina película de suor gelado que se adensava com enorme rapidez. tudo se passava muito rápido naquele dia, demasiado rápido, como se o dia não tivesse desejado existir e nele se desocultasse uma força irremediável, que voluntariamente o precipitava para o fim, como uma criança se retira, em cólera e desespero, para um canto escuro onde possa ficar a sós, um pedaço de mundo silente. sem conseguir escrutinar as razões de tal pressa, A. simplesmente via-se transportado por ela, metido numa enxurrada, em trambolhões, aos empurrões. mais ou menos a meio do dia, percebeu que a única coisa que não era afetada pela corrente, era o seu olhar. A. via. imagens sem concessões, de uma violência insólita, microscópicas, com uma simplicidade monástica, pontuavam o dia, reproduzindo no seu corpo uma transformação inexorável, através da secreta fratura de pequenos ossos e cartilagens. nada seria como antes, e a pouco e pouco sabia-o. mas, a partir dali, o que seria? à hora do almoço viu o sol brilhar e reparou que as suas mãos tremiam quase imperceptivelmente. um fio de suor descia pela têmpora esquerda, uma mexa de cabelo atrás da orelha estava ensopada. temendo denunciar-se, tentou medir cautelosamente os seus movimentos mas logo viu que isso se tinha tornado impossível: a velocidade, tornava colossais movimentos usualmente insignificantes, infantis, ocultando precisamente aqueles que lhe exigiam um esforço monstruoso. com grande choque, percebeu que, pela primeira vez desde que vinha ao parque, o passeio não lhe trazia hoje qualquer espécie de alívio, mas ainda assim quis insistir, e caminhou com fúria sobre a relva e sobre as folhas secas em direção ao centro, como um cão, procurando um lugar verde e fresco, pois ao contrário da última vez que ali tinha estado, na primavera, as copas das árvores tinham secado, deixando o céu a descoberto entre os ramos. porque estava sempre tão perdido?, perguntou-se com uma certa lassidão. era como se não pertencesse nem ao espaço nem ao próprio corpo que, a uma distância inominável do mundo, se ia desfazendo. havia nisso volúpia e satisfação, uma curiosidade impassível sobre o que apareceria no seu lugar. infeliz enfado deve ser a vida para quem tudo o que aparece já é alguma coisa, pensou.
aquecido pelo sol, adormeceu. acordou de noite, nu, imerso num imenso matagal que começava a cobrir-se de orvalho. sentindo-se abençoado pelo sentimento de solidão de quem acorda, em desproporção cúmplice com o cosmo, decidiu apreciar a contemplação das estrelas e não se levantou logo. a floresta parecia ser antiga, como que saída de uma fantasia judaica, com árvores frondosas, profundamente húmida e atravessada por uma miríade de sons infinita: vozes de aves e de outros animais, água a cair, folhas que empurradas pelo vento tocavam noutras folhas, passos, a respiração uníssona de todas as criaturas que a habitavam. fora isso, o silêncio era absoluto. o chão onde estava deitado continuava quente. névoas informes, que os olhos não podiam seguir, ascendiam na obscuridade, um odor de morte banal emergia e misturava-se com a frescura da noite. nele, uma alegria fervilhante fazia coincidir a omnisciente consensualidade da ignorância com o milagre intolerável. não se via viv'alma. teria de procurar uma saída através da vedação pois o parque estava fechado àquela hora. para sua surpresa, não foi difícil caminhar na escuridão. regressado ao incorrupto vagar que molda a matéria, o tempo já não era esse abominável mistério acossado e a noite, fresca, de um brilho viscoso, oferecia-lhe um refúgio agradável. não viu ninguém na rua. caminhou devagar sobre o alcatrão seco até chegar a casa, onde entrou através da janela da cozinha, a cheirar a pó e eucalipto e com erva no cabelo. sentado à beira da cama, as costas ligeiramente arqueadas, juntou as mãos, entrelaçando os dedos. tenuemente iluminado pelo candeeiro de rua, o quarto parecia-lhe agora distante como um planeta pertencente a uma outra galáxia. a monotonia regressava, como um tapete desbotado. levantou ligeiramente a cabeça inclinada sobre as mãos e, ao passar os olhos pelo sofá, que entrevia em parte através da porta para a sala, pareceu-lhe ver qualquer coisa, por isso fechou-os e tornou a olhar. uma mulher jovem, seus seios redondos e pesados, de cabelo avelã, ombros delicados, pés pequenos, dormia serenamente sobre uma manta castanha. a alvura da pele fê-lo pensar que podia estar a sonhar mas não conseguiu desviar os olhos. de formas arredondadas, era maciça, de uma inocência bravia, e ali resplandecia adormecida numa submissão total, quase indecente. uma ereção tardia como um regresso às origens, untada de sangue, um tanto grosseira apesar da cor rosácea, apareceu selvagemente, como uma lembrança despertada por ódios involuntários. havia uma solenidade comovente no momento. teve vontade de rir, mas não o fez para não a acordar. sem poder evitar o frémito interior, levantou-se e dirigiu-se a ela, cuidadosamente, para que ele próprio não acordasse. era uma coisa em chamas. os ombros abriam quando o peito se enchia de ar, cheirava a leite: era uma presa. tinha a boca ligeiramente aberta como que para deixar escapar um segredo. agora com a cabeça sobre ela, um perfume voluptuoso e grave atingiu-o como um vórtice. sentiu-se arder numa febre iniciática, embriagado. respirando fundo olhou em frente pela janela, passou as mãos sobre o rosto. que descoberta inesperada! queria tocar-lhe mas não sabia como fazê-lo, temia-a como se teme uma catástrofe, desejava-a como a uma ferida. tinha começado a amanhecer e ouviu-se o grasnar de corvos. à medida que a luz subia, A. avistou atónito a cidade em ruínas. empilhadas sob a alvorada, não deixavam reconhecer o mapa que as antecedia. olhou rapidamente na direção do parque, a floresta tinha desaparecido. protegidos por não se sabe que desígnio ou até quando, A. e a mulher, caída num sono profundo, permaneciam como que em suspenso, enquanto a luz devorava a noite subterrânea. ao meio-dia em ponto, uma dor lancinante atingiu-o e A. deixou de poder ver. o espasmo, ao mesmo tempo pungente e disseminado, atirou-o para o chão torturando-o implacavelmente. ao mesmo tempo, pensou na mulher e em como, sem saber porque nem por quanto tempo ali estaria, tinha deixado de a ver da mesma maneira que tinha passado a vê-la, abruptamente, e surpreendeu-se um pouco ao perceber que não tinha pena, não sentia por isso frustração nem desilusão nem desgosto. ao contrário, intensa e agonizante, a dor perturbava-o ao ponto de não ousar mover-se, esvaziando-o de toda a energia e resistência. a imagem de uma árvore morta, o tronco oco branco contra um céu azul ígneo, surgiu na sua mente. paradoxalmente, se por um lado a dor o imobilizava, uma audição feroz, sem ímpeto, tornava-o inteiramente desperto. nesse estado de atenção, onde o mundo vibrava cristalinamente pela primeira vez, em vez de preso, sentia-se livre como um gato selvagem e, para lá da cavidade em sossego, ouvia disperso, como uma alucinação que nem a mais brilhante reflexão poderia esclarecer, o ruído surdo da cidade. cheia de olhos que a atravessavam como cavalos e onde tudo era passageiro e feroz — tanto os assassínios e os roubos como a paz e a fartura —, A. conhecia-a bem e, apesar de a saber em ruínas, acreditava que ela não tinha mudado. assim esteve muito tempo, até que se habituou à dor e a esqueceu, como se pudesse viver para sempre com ela. a dado momento, pulsante e inequívoca, uma voz feminina soa na casa. parecia projetar-se das paredes, envolvendo-o como uma mãe ou a loucura e, com o corpo retorcido no chão, A. teve a tentação de tapar o membro desanimado com as mãos, o que fez mal o pensou. embora a ouvindo distintamente, pareceu-lhe também que as suas palavras eram como que traduzidas, e o facto de não ter acesso ao original angustiou-o profundamente. um nó horrível bloqueou-lhe a garganta. a mulher disse:

transformo a falta, a ausência, a saudade, em vício, para que me torne sua escrava. 
e não tua.

consternado e triste, viu a dor desaparecer lentamente, a visão regressar. levantou-se e procurou-a por toda a parte mas a casa estava vazia. ao ouvir ao longe o barulho de obras e um chilreio de crianças, aproximou-se da janela: a cidade tinha voltado a ser a mesma e como que reerguida dos escombros, brilhava na sua obscura assimetria e imprevisibilidade.
— Quel siècle de mains! — Je n'aurais jamais ma main!

Arthur Rimbaud, Une saison en enfer.
Em 1974 Burden apresentou THE VISITATION, uma performance que foi realizada durante a inauguração da exposição de pintura California Climate. O espaço para a performance consistia numa sala confessional na cave. Nesta performance o artista recebia uma só pessoa de cada vez, e o que acontecia entre um e outro manteve-se em segredo. Não que houvesse uma regra ou instrução sobre isso, mas porque os participantes se recusavam a revelar o conteúdo do que tinha acontecido dentro da sala:
"I chose a very large room in the basement for my performance. The space had a low ceiling, a dirt floor, and contained a massive stone fireplace support. One side of this huge block opened to form a niche. I was seated in the niche facing the opening, with glowing coals around my share. About a foot away, an empty chair faced me. The room was black except for a small ray of light leading toward the niche from the next room in the basement. People who wanted to see the piece had to ask Michael Shapiro, the organizer of the show. He escorted each person, one at a time, to a locked door and through the lighted room of the basement, leaving them at the entrance to the large dark space and returning to the party upstairs. Each person was left to discover my presence and accept the invitation of the empty chair. Because each person spent about half an hour with me, only fifteen people were able to participate in the piece. Although there was no indication by me that they should not discuss the piece, the participants refused to disclose their experiences to those waiting outside."

Em THE VISITATION o artista estava sentado – semiobscurecido – e à espera de quem o quisesse encontrar. Eles seriam provavelmente estranhos um ao outro e imagino que o que aconteceu tivesse uma estrutura conversacional, dado que não existiam instruções ou um ritual específico a ser seguido. É muito interessante em THE VISITATION os participantes sentiram-se compelidos a guardar o que se passou para si mesmos, como se houvesse uma necessidade ética ou intrínseca de confidencialidade.

Susana Mendes Silva, A performance enquanto encontro íntimo.
com que facilidade aceitámos a ditadura do gosto. viverá por muito, muito tempo, pois é feita de intuições e riscos, curiosidade e esmero. foi também isso que fez o homem erguer-se sobre duas patas.
já perdi a conta a quantas vidas vivi em Lisboa. é impressionante como, numa cidade tão pequena, possa haver tantos mundos que não se cruzam. todos querem perdurar em si mesmos, todos possuem o ónus da verdade messiânica. eu vim para me misturar com eles e quanto mais tempo passa mais impura me torno a seus olhos, porventura, no limite, contaminada pela minha incapacidade de ajustamento. não fui talhada para a perfeição mas sim para a imperfeição, que desde cedo se revelou uma extensão mais vasta, na verdade branca e infinita, onde recupero fôlego nas fugas. persigo o seu horizonte de tempo o mais delicadamente possível. da mesma maneira, quanto mais tempo passa, mais difícil é encontrar quem não esteja preocupado em não ter febre e não sujar a roupa. mas quando se encontra, a esperança é avassaladora.

Seja o que te rodeia o canto de um candeeiro, a voz da tempestade, a respiração do entardecer ou o gemido do mar - atrás de ti está sempre vigilante uma vasta melodia, tecida de milhares de vozes, na qual o teu solo só tem lugar aqui e ali. Saber quando deves fazer a tua entrada, eis o segredo da tua solidão, tal como a arte do verdadeiro relacionamento é: do alto das palavras deixar-se cair na melodia una e comum.

Rainer Maria Rilke

8 de maio de 2015

E a exclusão da forma é sempre um projecto, um cálculo.

Pier Paolo Pasolini, Petróleo.

7 de maio de 2015

às vezes acho que os portugueses são uns ingleses de merda e dou por mim a pensar que escrevo contra isso.

6 de maio de 2015

Я пью за разоренный дом,
За злую жизнь мою,
За одиночество вдвоем,
И за тебя я пью,—
За ложь меня предавших губ,
За мертвый холод глаз,
За то, что мир жесток и груб,
За то, что Бог не спас.

Eu bebo ao lar despedaçado,
À minha vida cruel,
À solidão a dois,
E a você eu bebo, –
Ao lábio que me traiu,
Ao frio mortal dos olhos,
Ao mundo, duro e cruel,
A Deus, que não salva.

Anna Akhmatova, Последний тост [Último brinde], 1934.
NOTAS

Neste livrinho de notas pode ler-se a seguinte entrada, s.d.: "Foda-se…!"
Quando uma criatura está em evidente regência de si não escreve diários, tratando-se estes da nula posição no que de diário têm os dias vividos plenamente. Decidi meter-me neles no princípio do ano, pensando, aqui vou eu poder ser ligeira, imaginar-me qualidades, seguir-me em forma de obra una e orgânica anotar o que de importante se passa nos meus dias de optimista invisual. Tonitroante na tamanha presença de mim vou tornando a cidade no meu coração porque parece que me despeço todos os dias. Se fosse médica diria: "reduza a pó tudo o que faça de si hospedaria de doença." Mas não sou. Escrevo umas merdas para aguentar muita luz, muita gente, muita morte. Dos ditos diários, há quem escreva coisas giras do género: "não perturbar o fumo do cigarro" — isto é para ser lido daqui a cinquenta anos e ainda ser cool, organizar excursões à Azinhaga da torre do Fato onde morou poeta que não perturbava. No meu diários há poucas linhas. Há umas palmas e vivas a encontros com amigos, um arroz de bacalhau que eu e a Rosalina fizemos uma vez numa noite em que um bom bocado de fuet caía ao chão como uma princesa rolando do pecado original, virada para baixo. Estava tudo delicioso, apareceu Deus em todas as suas faces. Há uma data misteriosa que diz só "amigos: Travessa do Corpo Santo 20:00" — sublinhado. Numa outra página uma nota inútil pretendendo-se singular: "Porque Camões é o hipómano da consciência moderna em crise", devo ter tentado trocar este binómio de Newton por uma Vénus de Milo de beber. À parte faltar a página do dia 14 de fevereiro, arranquei-a e guardei-a na gaveta das toalhas lavadas; o resto das páginas tem o efeito de florir novos adeptos pensamentos, ou seja, NADA. Ora, estando eu neste desemprego de vida entre o tudo e o nada desde que fiquei sem bolsa de doutoramento, estando eu a terminar um — para que o diabo me encontre mais rapidamente que aos outros e me convide para o bonde capeta onde se é realmente feliz com uma mol de água e uma mol de cianeto, é para isso que servem os doutoramentos —, e estando eu à procura de trabalho, um trabalhinho normal de pessoa normal que sabe ler e escrever e leu inclusivamente o livro das anedotas do Herman José em gaiata—, enfim, estando eu inevitavelmente acompanhada nesse tempo demais, com um currículo académico extensamente inútil, reparo como se pode fazer silêncio todos os dias cada vez mais em extensão e cada vez menos com peso. Depois de vez em quando passeamo-nos pelas estantes e encontramos um caderninho que entre as joínhas diz:
Planos para um futuro sem emprego:
a) Confirmar o erro psicológico ao Sr. Cabral de que já não preciso de inspiração; preciso é de balas.
b) Estrangeirar-me, mudar de rua, mudar de cidade, mudar de país, mudar de órgãos, mudar de religião, mudar de 'ser humilhante ter andado a estudar para ser uma desempregada no meu país' para: 'ser menos humilhante ter andado a estudar para ser desempregada mas não no meu país'.
Posto isto, amigos, é singular que não nos interesse a doença, senão aquela parte da teoria com que nos comprometemos com todas as gramáticas possíveis. Compreendido isto até à inconsciência, sentido isto ao fundo do corpo, estou com quem despreze os restos. Estou um bocadinho farta, sim. Já nos encontramos.

Raquel Nobre Guerra, publicado no facebook no dia 5 de maio às 19:14 com uma imagem.
"E sumo-me."

5 de maio de 2015

só gosto das manhãs. pela hora do pequeno almoço, é a pureza da luz que raia, por toda a parte. faço sempre duas torradas e bebo uma chávena grande de café fraco e, enquanto as torradas fazem, vou à casa de banho por creme na cara, ao espelho. há uma serena ordem a presidir à rotina, tudo se passa como se a manhã fosse eterna. e eu não me apresso. por vezes ligo o rádio para ouvir música clássica e desligo ou mudo de estação quando aparecem pessoas a falar. por não serem vorazes, as manhãs não exigem que sejamos engenhosos, como acontece com as tardes, sobretudo com o meio da tarde, onde se encontra sempre um poço seco à beira do qual ouvimos um coro de vozes, frias como facas, que nos tentam a lá cair. manhãs de nevoeiro são comoventes, como a nudez ou a morte e nenhuma outra coisa como uma manhã clara se encontra além da banalidade. a pura razão que as planifica, a sua mecânica lenta, sem milagre, faz delas universos plenamente passivos, onde o turbilhão impudicamente se levanta e ataca, como um animal excitado.

4 de maio de 2015

Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.
Que as traças o devorem sem deixar
o mais débil vestígio de tua humanidade.
O que pensas do amor, da vida e da morte
não interessa a ninguém.
Todos estão demasiadamente distraídos
e preocupados com as precárias
liberdades do corpo e as metamorfoses da alma.

Digam o que disserem os graves e os cínicos
os bêbados e os bastardos
os que te cumprimentam todas as manhãs
com mentirosa cordialidade...
— Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.

Francisco Carvalho

3 de maio de 2015

Pouco a pouco, anunciada por um caos de muralhas derrubadas, esgotos a descoberto, pardieiros, fábricas mal acabadas de construir e já em desuso - destelhadas - com os esqueletos de ferro contorcidos e contra a luz cada vez mais intensa e encadeante - restos de pequenos burgos medievais e manchados como por uma devorada humidade tropical - apareceu uma cidade interminável. Ao fundo brilhava o mar. O ar estava carregado de um fedor indefinível: merda, gases, esgotos, mas também terra adubada de hortas, limões podres, enxofre e algo perdido, sufocante, que não era senão a poeira da pobreza.

Pier Paolo Pasolini, Petróleo.

2 de maio de 2015

subitamente sinto-me vazia, como quando chega a felicidade. debaixo de um sol de verão que arde num céu encoberto, os catos secam na varanda, como quando eu não estava. quando os sinos desatam a repicar, reparo em pessoas que passeiam o cão no largo, e que também o largo está vazio. está tudo vazio, pois o olhar delas é absorto, tão absorto que creio nem ouvirem os sinos ou se apercebem do vento forte que sopra no largo em todas as direções. não tenho nada. o largo vazio sou eu, sem temor e sem júbilo. sou o espaço antes ocupado por um enigma, que desapareceu depois de, com sede, ter vomitado no deserto. da indissolúvel quimera dos apetites, onde, por desconhecer a resposta a perguntas sem solução, se oculta a monótona matiz da cobardia,

me ergo, limpa.

1 de maio de 2015

Há na ironia uma pretensão insuportável: a de pertencer a uma raça superior, e de ser a propriedade dos mestres (um texto famoso de Renan di-lo sem ironia, dado que a ironia acaba depressa quando fala de si própria). O humor reclama-se, pelo contrário, de uma minoria, de um devir-minoritário (...).

Gilles Deleuze, Dialogues, 1977.
When I cannot see words curling like rings of smoke round me I am in darkness—I am nothing.

Virginia Woolf, The Waves.