31 de outubro de 2015

Não quero negativar a vibe de ninguém. Só ando desacreditado da vida e sem a mínima vontade de interagir com o mundo. Tem dias que acordo pensando em tomar 4 cartelas de remédios ou amarrar uma corda no pescoço e foda-se. Estou falido. Deprimido. Doente. Diabético e com suspeita de câncer no reto. Doença que quase matou meu pai tempo desses. Uma dor desgraçada no cu que lateja e arde o dia inteiro, mas ontem deu uma melhorada e uma mulher vomitou no meu pé e disse que precisava de um filho. Que se eu podia dar um filho pra ela. Eu disse que era estéril. Que a literatura já enchia muito meu saco e que não tinha cabeça e responsabilidade para cuidar de uma criança. Que tinha um casal de cães. O Bakunin e a Anais Nin. Então começou a chover e nos abrigamos embaixo da marquise de uma igreja abandonada e ela não parava de falar. Acendeu um baseado de pasta de cocaína com maconha e perguntou o que era literatura e me chamou de gay. Que se eu fosse homem de verdade treparia com ela ali mesmo. No chão sujo cheirando a baba de mendigo. Lembrei de uma tia evangélica que acha que homem solteiro com mais de trinta anos é bicha ou doente mental. Talvez eu seja doente mental. Quem abandona tudo para fazer literatura é louco. Aí a maluca tirou a blusa. Os mamilos roxos e inchados. Como se fossem chupados todos os dias. Eu disse "não precisa disso, gata. Segura a tua onda. Veste tua blusa." aí ela começou a gritar "você vai me comer! Homem nenhum faz desfeita da minha boceta" aí começou a dar tapas na barriga. "você vai ter que me comer!" aí acendi meu derby e dei uma golada pesada na minha garrafa de conhaque e fui caminhando até uma viatura parar e um soldado perguntar por que não comi a dona. Ele perguntou rindo. O dia clareando e algo dentro de mim dizendo "não tem como abandonar a literatura, cara. Mesmo que você queira. É algo mais forte que tudo." Abro um sorriso e entro na minha rua cheia de urubus revirando lixo.

Diego Moraes, publicado no facebook no dia 23 de outubro às 12:26.

29 de outubro de 2015

O crioulo é considerado a língua nacional e é o meio de comunicação entre os diferentes grupos étnicos. O português, declarado língua nacional oficial, é pouco falado e o seu uso encontra-se limitado aos meios oficiais e a um pequeno número de guineenses. O analfabetismo entre os indivíduos com 15 anos e mais, era de 49,8% em 2009, demonstrando assim que metade da população adulta não sabe ler nem escrever.

27 de outubro de 2015

o tratamento não tinha conseguido interromper o rápido processo de morte e o moribundo, embora lúcido, já só os olhos piscava de vez em quando. no momento em que se dirigiu para o hospital, tinha decidido abandonar-me, pelo menos era essa a minha impressão enquanto o contemplava agora e percebia que a felicidade tinha uma nitidez assustadora. eram três horas da madrugada de uma noite estrelada muito fria e eu não seria capaz de evitar a catástrofe mas em vez do fim veio a salvação. não serviu de nada.

24 de outubro de 2015

Daqui até à Póvoa de Varzim a povoação mais importante de pescadores é a Lagarteira (Âncora), na segunda reentrância da costa. Deito‑me a pé pela estrada, através do lindo pinheiral do Estado, que, de cismático, me lembra António Nobre, e fico perdido de sonho no Moledo. Em 13 de Agosto de manhã há uma ligeira névoa, um nada, um bafo. São nove horas. O azul entontece. Perco a linha da paisagem, o verde‑escuro do pinheiral que vai até ao mar, e tudo isto se me afigura uma larga concha azul, formada pelo mar azul e pelo céu azul, com uma borda de areal onde alguns velhos moinhos em fila batem as asas para meu encanto. O forte da Senhora da Ínsua fica num extremo, com o monte de Santa Tecla, que saiu agora do mar a escorrer, e no outro extremo da curva, onde a amplidão do azul é infinita, a penedia a desfazer‑se em espuma… Não posso. Por mais que queira não posso arredar‑me daqui, com a cabeça estonteada. Fico. E só ao fim da tarde é que consigo chegar a Âncora, com dois jactos de azul metidos pelos olhos dentro. Logo hoje, até muito tarde, não se apaga do céu um doirado de iluminura, que se prolonga até noite velha e morre com aflição…

Raul Brandão, Os Pescadores.

22 de outubro de 2015

Eu deito fora a porcaria sentimental. Esta é a minha tarefa. Na literatura, eu sou a senhora da limpeza, a senhora com o caixote do lixo.

Elfriede Jelinek (2004).

21 de outubro de 2015

19 de outubro de 2015

há uma ave no chão
não se move mas está viva
não se vê mas tem ferida

aproximo-me e meticulosamente
quebro-lhe a asa
antes de continuar o meu caminho
o instante em que a presa é imobilizada é o único que é puro e, por isso, o caçador nunca engole a presa mal a apanha. nela, a carne amolece e abre-se, nele o ímpeto recebe a frágua e leva o rumor. os demónios são expulsos, os inimigos vencidos, não há zelo nem escrúpulo nem privilégio nem honra mas sim silêncio. depois, antes de aplicar o último golpe, quando a presa quebra, também o caçador se imobiliza. aí, e apenas aí, a caça é inalienável.

18 de outubro de 2015

passei por um casal de mendigos a foder na entrada de um prédio. estavam tapados com um saco cama, ela praticamente imóvel, parecia morta, tinha a mão de fora da coberta, suja. ele estava todo lá dentro e os movimentos eram visíveis. passei numa direção e vi isto, voltei a passar na direção oposta e ele já lá não estava. ela continuava imóvel e tapada, mas tinha mudado de posição, deitou-se de barriga para baixo. não dava para perceber se ele iria voltar, o lugar que ocupava anteriormente estava agora a descoberto, mas também nunca dá não é?

17 de outubro de 2015

15 de outubro de 2015

para o A., que me dá bons conselhos.



"ouve", disse-me o rapaz, "silêncio". eu: "não". como se de propósito, o operário exclamou "é meu filho!". pela primeira vez tive saudades de Marrocos. o meu pai, sozinho, com os cotovelos apoiados na mesa e o queixo nas mãos. "e depois porra?", perguntei. um amigo veio buscá-lo. veio dizer-me "você tem de tirar dali o carro". percebi que o corte na mão não era profundo e mandei-o parar. "que catástrofe". "vá. silêncio.". chovia copiosamente. olhei para ela, introspetivo. ela endireitou o corpo e disse a sorrir, sem desviar os olhos do livro "alegria, alegria".

13 de outubro de 2015

deixando para trás a coluna de sol, os grilos e os curiosos, mal dado um passo para dentro da sombra fresca, o rosto dela surgiu com tanta veemência que nesse mesmo instante comparou a lembrança à de um morto, de quem o nojo fosse intolerável. o pensamento a seguir, enquanto seguia pela nave, foi que, justamente, ela não estava morta. os convidados sorriam ou choravam, uma felicidade tremenda, ignota, tinha-se apoderado da maior parte. no altar, o noivo também sorria, porém com uma felicidade frágil, genuína, que, contudo, desprezou. enquanto caminhava pela nave, cada vez mais lentamente, A. lembrou-se, com cuidado extremo, de todos os detalhes do seu corpo. da voz, do peso da mão, dos pelos da púbis, do tom da pele, da curva do pescoço, do cheiro da transpiração. quando chegou ao altar desejava ardentemente revê-la. imaginou-se a refazer o caminho de volta para a praça, atravessá-la, conduzir o carro durante uma hora e meia, procurar a casa, encontrar a casa, bater. mas não conseguia imaginá-la a surgir do lado de lá da porta. sem sucesso, ao longo de toda a cerimónia procurou imaginar esse rosto aparecer e por isso, quando entrou no carro que os levaria ao jardim, sentia-se indisfarçavelmente esgotada e abatida. embora com repulsa, pousou a cabeça no ombro do marido durante o percurso. não sabia no entanto a quem se destinava exatamente esta repulsa, se ao homem que com todo o afeto e compreensão acariciava agora o seu joelho, se a si própria, indistintamente burladora e burlada. começou a chorar, não para libertar a tensão mas sim a tristeza. indiferente às interrogações que choviam, escudou-se atrás de um bloco de silêncio e continuou a ver a escuridão atrás da porta aberta, de onde nenhum rosto assomava.
Estou nu diante da água imóvel. Deixei minha roupa
no silêncio dos últimos ramos.
Isto era o destino:
chegar à margem e ter medo da quietude da água.

Antonio Gamoneda, Livro do Frio.

12 de outubro de 2015

o meu olhar abandonou a delicada sombra da teia no mesmo instante. escrevi seis palavras e o olhar atirou-se para dentro do inimaginável. ouro, panos, tristeza, conspirações, e uma voz edificante, inflexível e clara, da qual desconfio e profundamente desprezo. nesse momento, redigi uma carta. lisboa, 3 de novembro de 1988. tinha rabiscado uns apontamentos, agora incompreensíveis. escrevi-a na mesma. o espaço mergulhou num êxtase silencioso raro, preparei-me para o exílio. hora cativa, que me desaloja do tédio, hora desvanecida, cujo som acorda o mancebo: a minha admiração se perde nela.
Eis o outono: cresce a prumo.

Eugénio de Andrade

8 de outubro de 2015

7 de outubro de 2015

a Sinead O'Connor tem passado os últimos meses a destilar veneno contra o seu irmão e sabe-se lá mais quem no facebook. aqui há uns dois ou três anos, li no jornal que um escritor, que desconhecia e de quem infelizmente entretanto esqueci o nome, se matou por estar a ver a sua memória desaparecer. ontem foi a Chantal Akerman, aparentemente suicidou-se em consequência da má crítica ao seu último filme. apesar da obra que tem, apesar de tudo. a única morte nobre é a morte incompreensível, como um mergulho no mutismo a que estamos livrados.

5 de outubro de 2015

Enquanto Prisco e Vero alargavam o confronto, e por longo tempo a luta foi igual em ambos os lados, altos e repetidos gritos reclamavam a liberdade para os homens; mas César seguiu a sua própria lei; era a lei de lutar com o escudo até que um dedo se alçasse: Fez o que lhe era permitido, muitas vezes deu comida e presente. Mas chegou-se ao fim com a mesma igualdade: Iguais a lutar, iguais a ceder. César enviou espadas de madeira e palmas a ambos: Portanto, a coragem e a habilidade receberam o seu prémio. Tal não teve lugar perante nenhum príncipe excepto tu, César: Quando dois lutaram, ambos foram vitoriosos.

Martial, Liber de Spectaculis (80 d.C.).

2 de outubro de 2015

refletidos na água
o contorno do meu rosto
e a tua intenção
inacusável


1 de outubro de 2015

Eram mulheres que, às suas carícias tinham respondido com toda a sua sensibilidade, esquecendo-se delas próprias, que tinham delirado, inconscientes de prazer.

Yasunari Kawabata, A Casa das Belas Adormecidas.
Ma belle dame souveraine.