a primeira vez que a vi foi num museu improvisado nas antigas instalações da rodoviária, que encerrou nos anos 90 e foi para um novo parque de estacionamento perto do cemitério, à saída da Vila. era um museu sem paredes lá dentro, escuro, com pó sedimentado, e em que, contudo, muitas vezes penso e tenho saudades de visitar. chamava-se Museu Etnográfico de Torres Novas. foi como fiquei a saber o que era a etnografia: por ver o nome, que não conhecia, impresso numa tela gigante e mal suspensa nos antigos portões das traseiras da garagem, que agora estavam desativados. e foi ali, por causa da etnografia, que fiquei a saber quem eu era, de onde vinha e como se tinha vivido naquela terra de figueiras com um castelo no meio e um rio por baixo. ferramentas agrícolas, trajes de mulher e de homem, de crianças, sapatos, brinquedos, objetos que se produziam e que se usavam, muitos que eu nunca tinha visto, muitos ainda cobertos de ferrugem, gordura ou simplesmente encarquilhados pelo tempo recheavam o interior do edifício e eram cuidados, e explicados, pelas mulheres que ali andavam, sorridentes, amáveis e disponíveis, que imediatamente, mal mostrássemos interesse, demonstravam possuir um conhecimento profundo sobre cada um deles. numa outra área reuniam-se peças de arqueologia industrial, carros, máquinas — em que tinha menos interesse, e julgo que por isso por lá não terei passado mais de duas vezes, sempre com o desprazer de me sentir esmagada não só pela sua dimensão, mas também, e talvez sobretudo, pela sua imobilidade, ela própria parecendo obsoleta. cristalizadas no arcaísmo da sua irrelevância, ao contrário da fotografia, as máquinas calavam-se.
num ano qualquer, ao regressar, dei com ele fechado. o espólio havia sido transferido para um pavilhão afastado do centro da cidade, que estava — e está — encerrado ao público, embora na altura se tenha dito que seria para reabrir. nisto terão passado 20 anos? mais? mas continua fechado e, aparentemente, ao que se diz na Vila, ao abandono, tanto a estrutura do edifício, de resto icónico para o lugar, como também esse valioso património etnográfico que aí ficou armazenado.
esta fotografia — muito maior pois lhe faltam as margens — é uma fotografia das trabalhadoras da Companhia Nacional de Fiação e Tecidos de Torres Novas. tinha um magnetismo avassalador: o olhar das trabalhadoras, ao mesmo tempo duro e presente, despia-nos, atraindo-nos com uma vulnerabilidade impetuosa e possante. começava-se a imaginar as suas condições de vida, a época, as horas, as conversas que haveriam de ter ou não ter tido. havia nela também a grande descoberta de ser uma fotografia apenas com mulheres que trabalhavam, algo que me haviam dito pouco ter existido antes de mim. e no entanto ali estavam: centenas.
a Fábrica, tal como era conhecida, funcionou durante 165 anos na Rua da Fábrica e foi um dos mais importantes centros da atividade laboral da região e do país. nos armazéns Printemps, em Paris, até há pouco tempo, os atoalhados e lençóis mais finos, e mais caros, vinham daí, e nem era preciso ir até Paris para se encontrarem essas preciosidades — na Paris em Lisboa também se vendiam. a Fábrica deu trabalho a mais de 400 trabalhadores na região, muitos deles mulheres. abriu em 1845 e a princípio dedicava-se à produção de artigos básicos, em geral destinados a serem utilizados como matéria-prima pelos seus próprios clientes, como fios de linho, de juta, de algodão ou lonas de algodão. todo o processo de fabrico, desde o fio de algodão até ao produto final, era controlado, e a alta qualidade dos seus produtos tornou-se conhecida. lembro-me de cobiçar toalhas de fantasia e de riscas, toalhas lisas, roupões em tecido turco, quimonos, chinelos, acessórios de banho, lençóis, guardanapos e guardanapos de cocktail, toalhas de mesa, mantas e colchas, fronhas, tapetes de banho, toalhetes, uns realizados em flanela, outros em jacquard, cetim, percal, algodão, linho ou turco, bordados e lisos. em 1881, a Fábrica era uma das 50 maiores empresas da indústria transformadora portuguesa e no início do século seguinte declarou falência e encerrou portas. há muito que havia deixado de se ouvir a sirene, manhã cedo e fim da tarde. tenho saudades do toque da fábrica fiação e tecidos mesmo sem nunca o ter ouvido, do ar fresco, luz oblíqua que o acompanhavam e que, contra a fealdade e a violência, construíam um mundo feito de pormenores inoperantes, comuns.
muito maior do que esta que aqui se vê, dizia, a fotografia, retangular e em tons de cinzento, e não sépia, estava ao fundo do museu, encostada à parede do lado direito. na minha memória, pelo menos, a fotografia era invulgarmente grande, impressa em várias folhas e com as mulheres em tamanho real, entre as quais se encontra a minha bisavó, que era uma das trabalhadoras.