27 de setembro de 2017

diz-me meu deus
o que posso eu fazer
para apagar este dia
se amanhã
tenho de fazer tudo igual
e levantar-me à mesma hora,
comer às mesmas horas,
passar o dia no mesmo sítio,
com as mesmas pessoas,
de uma certa hora
a uma certa hora,
e se até na rua
as pessoas me parecem ser as mesmas,
a passar nos mesmos locais,
distraídas ou apressadas.
como posso eu
acreditar na tua bondade
se tu és o carrasco
que permite isto
e não deixa
que os dias se renovem.

todos menos eu
são heróis da vida quotidiana
que acreditam no trabalho
como benefício,
num amanhã melhor,
e, sobretudo,
que as coisas
têm de ser
como são.
a mim
o cansaço,
a desalegria,
a revolta,
a lassidão,
consomem-me,
dia após dia
e não posso acreditar
em nada
senão naquilo que os heróis
desprezam
como a negação
dos dias.

24 de setembro de 2017

16 de setembro de 2017

eram sombras longínquas, com uma expressão de piedade puramente mecânica, cuja aproximação me repugnava, pois estavam destinadas a perder-se facilmente. uma solidão supérflua e incómoda, inconcebível, persistia no limiar da memória. é isto que constitui o poder, pensei. uma ânsia vem mendigando atenção e, quem a veja, vai apoiá-la, de forma ingénua ou cómica. pelo menos mergulho na terra com espanto e, sem pestanejar, descubro em silêncio o milagre. toco-o e ele desaparece, pois a sua organização interna é inapreensível. para minha deceção, o seu ar de desprezo e de superioridade, ainda que subterrâneo, preenche o céu. embriaga-me um sentimento de culpa, sou impelida por um gesto inoportuno que se esfuma perigosamente. uma força ostensiva impele-me a renunciar à alegria e a inclinar-me à pobreza e à história. é esse o instante da transgressão, quando não há esperança. ergue-se um pó pesado e sujo, o mundo é o mundo na sua despreocupada falta. dela nasce o riso.
chego tarde às coisas, quando sobre elas já se sabe tudo e por isso foram deixadas para trás, devedoras do que a elas se seguiu. é, portanto, com enorme sossego que as abordo, sem contaminações de olhares externos. as descobertas tardias envolvem uma vontade serena, mas precisa, pois o tempo e o espaço foram trabalhados para as receber. o que é o momento certo? aquele que engolfa o corpo no espaço.

14 de setembro de 2017

haverei de hesitar sempre entre as paisagens desconhecidas e as familiares, sem que dessa hesitação venha algum privilégio ou ganho. preciso de viver num sítio onde saiba que há ruas onde nunca entrei, mas há um consolo inestimável em ver aquelas onde aprendi a andar. contudo, não preciso de as visitar. desde que me lembro que o meu movimento se afasta das coisas familiares como da sarna, como se houvesse uma rejeição da intimidade. contrariá-lo é particularmente exigente e nunca me trouxe grandes benefícios. não acredito em coisas que mudam, acredito em coisas que são. às vezes é preciso interpor uma distância entre nós e a intimidade, para que ela não julgue que nos pode fazer promessas. o progresso é o estertor da evidência.
O Campo

Pensei em ti
quando me dizias para nunca deixar
a caixa de fósforos de madeira, daqueles de emergência,
perdida pela casa, uma vez que os ratos


podiam chegar-lhe e começar um incêndio.
Mas a tua cara estava absolutamente séria
quando enroscaste a tampa da lata redonda
em que os fósforos, como disseste, estão guardados.

Quem poderia dormir naquela noite?
Quem poderia afastar a imagem
de um desses improváveis ratos
caminhando por um cano de água fria

por trás do papel de parede às flores
a agarrar um único fósforo
entre as agulhas dos dentes?
Quem não conseguiria imaginá-lo a dobrar a esquina,

a ponta azul raspando contra a madeira rugosa,
a súbita chama, e a criatura
por um claro e brilhante momento
subitamente levada adiante do seu tempo —

agora um pirómano, agora um portador da tocha
de um ritual esquecido, pequeno druida acastanhado
iluminando uma qualquer noite antiquíssima.
Quem poderia deixar de notar,

iluminados pelo radiante isolamento,
o minúsculo ar de surpresa nas faces
dos ratos seus amigos, outrora co-habitantes
daquela que fora a tua casa de campo?

Billy Collins, Amor Universal.

13 de setembro de 2017

falava como se esperasse que ninguém o entendesse, finalizando as frases num tom baixo e arrastado, quase melancólico, que a audiência tinha dificuldade em ouvir. pelo contrário, o orador ao lado falava num estado de exaltação permanente, com frases ritmadas em choque que nos faziam ficar em defesa, como de um ataque pessoal. nisto, entra a mais bela mulher do mundo. uma eletricidade frenética percorre-me o corpo, sou completamente distraída do motivo da reunião para não dizer da existência. a sua beleza atinge-me em pleno no coração aliviando-o de todas as mágoas, feridas e máculas. enquanto se move e fala, sinto-me diante de uma aparição divina que veio ao mundo só para mim. reparo na sua postura indolente, despreocupada. esta mulher traz com ela um tempo que se anula. a cor transparente dos seus olhos e o cabelo em desalinho, que esculpe em diferentes penteados sucessivos, não são deste mundo. dando ares da pessoa mais segura do mundo, falo-lhe e ela o que faz? cora. de olhos no chão e um sorriso tímido no rosto, cora tanto que olho para as suas mãos para ver se não coraram também.
encontrei há anos a desculpa certa para manter este blogue: um caderno de exercícios. o que ninguém sabe é que estou sempre a ter de resistir à tentação de publicar os próprios rascunhos dos textos, quando eles não são mais do que um esqueleto ou uma mera lista de apontamentos incompreensíveis.
as coisas que ele diz são avolumadas. têm mais definição que o resto dos fenómenos, a sua extensão tem força, firmeza, uma ligeira violência devo dizer, que se acentua ou se atenua conforme o seu bom ou mau humor e, sobretudo, as suas intenções. assim, a sua voz amacia-se ou avulta-se em momentos diferentes de uma mesma conversa. quando nos separamos, os seus discursos ecoam por muito tempo na minha memória, criando nela vincos que resistem ao tempo, largamente isolados dos múltiplos discursos das outras pessoas que encontro. por vezes, é apenas uma palavra que se destaca, tão lisa e contrastante que se mostra colossal perante mim própria. é por isso quase incredível descobrir que, sabe-se lá quantas vezes, dissolvo esses discursos no mar do inconsciente, absorvendo-os como se tivessem origem em mim.

12 de setembro de 2017

acredito que, no geral, um homem não é capaz de suportar o envelhecimento de uma mulher. acredito que, por isso, somos invadidos por apelos não só ao rejuvenescimento, como à magreza e ao cuidado com a pele: a beleza está indissociavelmente ligada a uma arreigada sociedade patriarcal. pintar o cabelo, usar cremes contra estrias, rugas, celulite e manchas, tomar remédios para emagrecer, fazer exercício para emagrecer, a tudo isso as mulheres cedem deixando irreconhecível a vida tal como ela é.

11 de setembro de 2017

Les uns pensent, dit-on, les autres agissent! Mais la vraie condition de l’homme, c’est de penser avec ses mains.

Denis de Rougemont, Penser avec les mains.

10 de setembro de 2017

por vezes, quando me levanto depois de escrever, a minha casa parece não ser a minha casa. distante dos objetos que a preenchem, sinto-me nela como se estivesse de visita, como se estivesse longe de onde realmente vivo, numa casa, digamos, emprestada. nem as suas paredes nem aquilo que a ocupa me pertence, não tenho nada para além do corpo que se move no escuro, tateando corredor fora até ao interruptor. e na verdade, mesmo a esse corpo tenho dificuldade em chegar. tudo se passa como se demorasse a voltar de uma viagem a um sítio longínquo. regresso a casa lentamente e penso por vezes que talvez seja essa uma das razões porque não consigo escrever senão no mais completo isolamento e silêncio. não sou só eu que regresso, mas as próprias coisas. também elas voltam a murmurar e a olhar para mim, querem contar-me a sua história. a absoluta normalidade tem algo de comovente e ao mesmo tempo de solene. a vida, destinada a ser perdida, tem qualquer rotina de celebração.

6 de setembro de 2017

o ator entra no elétrico e senta-se no primeiro banco disponível, à minha frente. está suado, tem o cabelo oleoso, umas botas grossas de caminhada apesar de estar calor. vi-o num filme e vi-o depois horas a fio numa performance onde se nomeava «o poeta» e bebia whiskey. tinha o rosto pintado nesse dia e um chapéu, parece-me, mas não dou a certeza. no filme tinha um fato preto e vivia num quarto em madeira. depois de se sentar respirou fundo e abriu um livro. não vi que livro era, tinha uma capa azul e estava bastante usado. quando saí do elétrico continuava a ler. não me viu. não sabe que por vezes recordo a sua voz, uma voz sem palavras, suave e densa. não sei se é um bom ator, mas gosto do nome dele. vi-o entrar no elétrico e a ler um livro hoje ao final da tarde e pensei que não gostaria de ser vista, ainda que não me falassem. ter um rosto público seria uma tortura a que não saberia resistir. não há nada pior do que ser visto, que desconhecidos tenham uma ideia superficial de nós e que essa ideia tenha um qualquer significado. contudo, ter um nome também me desgosta. há em mim uma exaltação pelo anonimato, pelo vulto, o ocluso, por ser uma massa sem espessura e sem sonoridade. existir no corpo e na voz (interior) de um leitor ao invés de no meu próprio corpo e voz. e já que tudo se reduz a isso, ser o múltiplo em vez do uno.

5 de setembro de 2017

é uma mulher. muito curvada, o cabelo todo branco e a pele praticamente da mesma cor, alimenta os gatos que se escondem no jardim abandonado de um palácio lisboeta. de sua casa traz o saco de comida seca e pão duro. dirige-se às traseiras do palácio e ali, no muro com altas grades, distribui a comida por vários recipientes. os gatos não demoram a chegar. um preto, um branco, um cinzento listado, alguns muito sujos, alguns bebés, miam em cima do muro enquanto ela fala e olha para mim desconfiada quando passo por eles. só falámos uma vez. contou-me a vida toda e agora este olhar, duro, hostil, silencioso. esteve para casar, mas a irmã adoeceu e ela veio tomar conta dela para a casa onde ainda hoje vive. passo por lá com frequência e espanta-me sempre que só veja estendidos trapos rasgados, uns a seguir aos outros, ou cuecas. a casa fica num rés-do-chão que mais parece uma cave, com degraus que descem para o interior e janelas ao nível da estrada, sempre protegidas por uma rede contra as moscas. o estendal foi feito com um pau de vassoura e um cordel verde, já muito gasto. sempre que posso, espreito para dentro da casa, como se com isso pudesse saber mais sobre a sua vida. às vezes, quando a encontro a alimentar os gatos, digo boa tarde, mas ela nunca responde, continua imersa na sua tarefa a falar com os gatos que miam. lembro-me que fez bordados e costura para ganhar a vida, que a irmã entretanto morreu e que já não trabalha. nunca, quando passo por casa dela, oiço um rádio ou uma televisão acesos. pergunto-me se se sente só, se precisará de dinheiro, se abre álbuns de fotografias para recordar os tempos de juventude. pergunto-me o que será dos gatos quando morrer.

1 de setembro de 2017

perdidos nesse grande parque de diversões que é Lisboa, os casais de turistas deixam escapar pequenos gestos íntimos na rua, sem perceberem que alguém os observa ou sem se importarem. a cidade readquiriu o estatuto de cosmopolita que tinha nos anos 40, quando era um refúgio da guerra, e goza atualmente da fama de ter um renascimento cultural motivado pelas políticas socialistas, pelos empresários e pelos empreendedores, essa nova espécie que não se sabe exatamente o que é. quando estou na rua, abrigo-me nesses gestos deixados para trás ao acaso e sem preocupações, como trapos. porventura, serei eu a recordá-los mais do que os próprios, da mesma maneira que eles recordarão a cidade como haverá de deixar de existir.