2 de abril de 2025

Quando alguém desabafa
sobre os seus problemas 
a gente escuta
Quando alguém narra
histórias por que passou
a gente ouve
Quando alguém se propõe 
discutir soluções novas
para problemas antigos
a gente participa 
Quando alguém tagarela
e opina e julga e ajuíza
e se desfaz em considerações 
inócuas sobre o fim do mundo
e a decadência dos povos
a gente enche-se de saudade 
dos melros na berma do rio
e afasta-se em busca de silêncio 

Kazuyoshi Matsubara
[Tradução de Juraan Vink]

21 de março de 2025

CORO DE MARIONETAS (tom ríspido e severo) 

"Come isso até ao fim!" 
"Come em vez de estares a olhar para o ar!" 
"Não te levantas da mesa sem ter comido o que está no prato!" 
"Se não comeres, o Papão come-te cru!" 
"É tão bom! Olha, é bom, vês como é bom!" 
"Se comeres tudo, compro-te um jogo." 
"Se comeres tudo, deixo-te ir ver os desenhos animados." 
"Se comeres deixo-te ir brincar." 
"Se gostasses de mim não te portavas dessa maneira." 
"O teu irmão é que se porta bem." 
"Come que não dói nada."

in Como um quarto sem telhado, ed. TNDMII, 2015.

19 de março de 2025

Leio: "Em suma, o nosso fidalgo embebeu-se tanto na leitura, que levava as noites a ler, desde lusco-fusco a lusco-fusco, e igualmente os dias, desde sol a sol. E assim, de pouco dormir e muito ler, aconteceu ressecarem-se-lhe os miolos e toldar-se-lhe de todo o juízo." É das primeiras páginas de Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes (a passagem que aqui cito está na versão de Aquilino Ribeiro). Pouco depois, abro o Facebook e, no perfil da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas leio: "Ler é Ser Livre" (capitais tal como no original). Não posso evitar a abjeção à propaganda de tanta esterilidade e miséria. Seguem-se os pontos de exclamação no esclarecimento, trata-se da celebração de três efemérides, o Dia Mundial da Poesia (21 de março), o Dia Internacional do Livro Infantil (2 de abril) e o Dia Mundial do Livro (23 de abril). Estou no início de Dom Quixote e nada mais desejo do que poder enlouquecer com ele.

9 de março de 2025

O colosso

"Em relação a esta distância, não tínhamos considerado nem a linguagem nem o silêncio. Eram irrelevantes, não lhe diziam respeito. Na verdade, eram da nossa mãe: usava-os como instrumentos de terror. Com a morte do nosso corpo, havia a promessa da libertação desses instrumentos. Era estranho pensar que, apesar de a lacuna dentro dos nossos corpos continuar por preencher, já podíamos recorrer à linguagem e ao silêncio. Antes, não havia silêncio que não fosse agressão, nem linguagem que não fosse uma tentativa de condenar e controlar. Em face do silêncio, fomos invadidos pelo pânico do abandono; a linguagem parecia uma espécie de mal, capaz de desestabilizar a realidade."

Desfile, Rachel Cusk
[p. 121]

Tenho vontade de escrever sobre o último livro da Cusk, como que para assinalar um marco nas minhas leituras, mas não sei como fazê-lo sem frases que, ao contrário das que ela escreve, irão parecer absurdas, pueris e imprecisas. Gostaria de escrever sobre o sentimento de proximidade que as grandes obras proporcionam aos seus leitores, mas apercebo-me que esse é um sentimento individual e, como a fé, provavelmente intransmissível. Resisti várias vezes a este livro, primeiro na língua original, depois em português, língua em que acabei por ler na tradução de Alda Rodrigues. A primeira página sugeria uma continuidade com Segunda Casa, e o terror perante uma história que voltasse ao tema da sujeição feminina e da opressão masculina impedia-me de continuar, sobretudo num momento em que o trabalho me asfixiava. A minha relação com este livro começou aí: nessa asfixia, nessa resistência, nesse terror, perguntava-me sobre as suas raízes, constatando com tristeza que, embora hoje mais segura, nunca estarei livre delas. Nunca estaremos, deveria dizer. Por isso, e poderão assinalar que é a primeira ingenuidade que aqui escrevo, comecei a ler o livro de maneira a terminá-lo ontem, dia em que se comemoraram os 50 anos da implementação do Dia Internacional das Mulheres. 

Este desfile de G(énios) inflamados, de elucubrações filosóficas, de abstrações solipsistas que se mostram cruciais na definição e na sustentação da identidade, de paisagens e horizontes amplos como de espaços íntimos e reservados, tomou tempo — não uso a palavra tomar de maneira inocente — a revelar a sua matriz e foi apenas na frase que aqui cito, a dezassete páginas do fim, que vi o livro. É um desfile construído com as grandes questões filosóficas, como a liberdade, a morte, o mal, o corpo, a verdade, descritas a partir da existência humana e daquilo que a define de modo mais formal: a divisão, ou a fusão, entre o mundo material e o da mente, entre visível e invisível, acidente e essência, no qual a memória se assume como uma figura magistral, tão dominadora na face em que se dá em plenitude, como terrível na face que a completa, uma carência de onde parece nascer o mal. E também as questões da psicanálise: o pai e a mãe, os arquétipos da violência, o conflito, o inconsciente, o ego, o amor, a infância, e, entre racional e irracional, o intelecto. As correntes ligam-se, avolumam-se, passam, criam belas imagens, personificam-se, e o barulho que fazem ao passar perdura, empurrando as paredes do cérebro para fora, não para as ampliar, mas para manter em silêncio o que dele poderia nascer. 

Comecei por dizer que gostaria de escrever sobre um sentimento de proximidade com este livro, mas que não poderei fazê-lo sem dizer coisas ingénuas. Não se trata da proximidade avassaladora que temos com os russos, com Shakespeare, ou com algumas obras da literatura moderna, de Kafka a Ernaux. É, aliás, algo que me parece ser impossível acontecer diante destas páginas muitas vezes exasperantes, aborrecidas e alienantes, onde o labor persistente da escrita e a sua teia construída numa paciente composição de remendos, retoques, tempo e repetição, aparecem às claras. É antes uma proximidade de abismo como a que se tem com o violador ou com o pai e a mãe. Parece por vezes intrusiva, como os sustos. Os momentos vão-se somando a esparsas até o desfile terminar, num ritmo cada vez maior à medida que nos aproximamos do final. E no entanto, como se o meu segredo tivesse sido desenterrado e descoberto, em várias páginas, tenho a tentação ridícula de olhar para trás para confirmar se é de mim que as páginas estão a falar. 

A perturbadora aridez da amálgama rendilhada e repetitiva dos códigos binários afunda-nos sem esperança? De onde retirar um sentido da realidade aleatória que nos agride ou daquela que testemunhamos? Como preservar nos nossos íntimos sujos e desarrumados, atolhados de lixo, onde tanto foi negado, um lugar onde seja possível criar? E como, entre tantos espelhos que apenas refletem outros espelhos, não enlouquecer? Através da história. A perversão, a fealdade, a loucura, bem como a pureza e a esperança, passam a fazer parte da história. 

"Os poucos trilhos eram sinuosos e indiretos, raramente conduzindo ao que parecia inequivocamente mais à frente. Desviavam-se para algures, fútil ou secretamente. Havia mistério nas sombras serpenteantes das ravinas arborizadas e nos canaviais que ondulavam nas planícies à beira-mar; nas colinas, as formas vagas dos descomunais pedregulhos brancos pareciam contemplar insistentemente as glaciais águas azuis. Por trás, elevava-se a montanha, com o seu irregular cume branco arrojando-se insensatamente para o céu. As suas superfícies brancas e prateadas erguiam-se, nuas e inexpugnáveis, numa forma colossal, não inclinada mas cubóide, composta de um sem-número de facetas nestas superfícies retilíneas e faiscantes. A estradinha esburacada pela encosta, rumo ao vale seguinte, serpenteando e voltando a serpentear na descida, através de fendas de vazio arborizado. As cabras permaneciam imóveis nos ramos retorcidos das oliveiras, entre o estardalhaço das cigarras. As canas faziam um som sibilante quando percorridas pelos ventos. O calor estridente desgastava a terra e o céu, tornando-os sem sentido, e sempre, ao longe, permanecia a montanha ilegível, com uma autoridade violenta que era visível de todos os lados." [p. 41]

8 de março de 2025

“Je suis une femme totalement détruite.”

Gisèle Pelicot

22 de fevereiro de 2025

Está online o microsite da Culturgest dedicado ao Matéria Incomum, projeto que tenho estado a dirigir na efabula.

“A verdadeira condição do homem é a de pensar com as suas mãos”, é uma frase do escritor suíço Denis de Rougemont, que Jean-Luc Godard cita no sétimo episódio das Histoires du Cinéma, «O controlo do universo». Fala da Europa, de nações, de liberdade, possibilidades, guerras, ditadores. Não é neste momento, porém, que vemos uma mão pela primeira vez no filme. O primeiro momento em que se fala de mãos, é para dizer que “o amor ao próximo é um ato, uma mão estendida, e não um sentimento encoberto.” Esta caracterização do amor e do pensamento como ação, é algo que gostaria de poder transmitir, compreendendo que tudo o resto possa permanecer na invisibilidade e em silêncio.
 
A Angelika Hinterbrandner, o Andreas Philippopolous-Mihalopolous, a Sepideh Karami, a Lucinda Correia, algumas das mãos que fazem este projeto, têm muito a dizer sobre isso.

Muito obrigada ao Ricardo Batista e à Mag Rodrigues por me terem permitido fazer o vídeo que apresento neste microsite. 

Edição, montagem e sonoplastia: Ricardo Batista
Imagens de balões: Mag Rodrigues
Texto e direção vídeo: Marta Rema

18 de fevereiro de 2025

Darkness
Byron

I had a dream, which was not all a dream.
The bright sun was extinguish'd, and the stars
Did wander darkling in the eternal space,
Rayless, and pathless, and the icy earth
Swung blind and blackening in the moonless air;
Morn came and went—and came, and brought no day,
And men forgot their passions in the dread
Of this their desolation; and all hearts
Were chill'd into a selfish prayer for light:
And they did live by watchfires—and the thrones,
The palaces of crowned kings—the huts,
The habitations of all things which dwell,
Were burnt for beacons; cities were consum'd,
And men were gather'd round their blazing homes
To look once more into each other's face;
Happy were those who dwelt within the eye
Of the volcanos, and their mountain-torch:
A fearful hope was all the world contain'd;
Forests were set on fire—but hour by hour
They fell and faded—and the crackling trunks
Extinguish'd with a crash—and all was black.
The brows of men by the despairing light
Wore an unearthly aspect, as by fits
The flashes fell upon them; some lay down
And hid their eyes and wept; and some did rest
Their chins upon their clenched hands, and smil'd;
And others hurried to and fro, and fed
Their funeral piles with fuel, and look'd up
With mad disquietude on the dull sky,
The pall of a past world; and then again
With curses cast them down upon the dust,
And gnash'd their teeth and howl'd: the wild birds shriek'd
And, terrified, did flutter on the ground,
And flap their useless wings; the wildest brutes
Came tame and tremulous; and vipers crawl'd
And twin'd themselves among the multitude,
Hissing, but stingless—they were slain for food.
And War, which for a moment was no more,
Did glut himself again: a meal was bought
With blood, and each sate sullenly apart
Gorging himself in gloom: no love was left;
All earth was but one thought—and that was death
Immediate and inglorious; and the pang
Of famine fed upon all entrails—men
Died, and their bones were tombless as their flesh;
The meagre by the meagre were devour'd,
Even dogs assail'd their masters, all save one,
And he was faithful to a corse, and kept
The birds and beasts and famish'd men at bay,
Till hunger clung them, or the dropping dead
Lur'd their lank jaws; himself sought out no food,
But with a piteous and perpetual moan,
And a quick desolate cry, licking the hand
Which answer'd not with a caress—he died.
The crowd was famish'd by degrees; but two
Of an enormous city did survive,
And they were enemies: they met beside
The dying embers of an altar-place
Where had been heap'd a mass of holy things
For an unholy usage; they rak'd up,
And shivering scrap'd with their cold skeleton hands
The feeble ashes, and their feeble breath
Blew for a little life, and made a flame
Which was a mockery; then they lifted up
Their eyes as it grew lighter, and beheld
Each other's aspects—saw, and shriek'd, and died—
Even of their mutual hideousness they died,
Unknowing who he was upon whose brow
Famine had written Fiend. The world was void,
The populous and the powerful was a lump,
Seasonless, herbless, treeless, manless, lifeless—
A lump of death—a chaos of hard clay.
The rivers, lakes and ocean all stood still,
And nothing stirr'd within their silent depths;
Ships sailorless lay rotting on the sea,
And their masts fell down piecemeal: as they dropp'd
They slept on the abyss without a surge—
The waves were dead; the tides were in their grave,
The moon, their mistress, had expir'd before;
The winds were wither'd in the stagnant air,
And the clouds perish'd; Darkness had no need
Of aid from them—She was the Universe.

14 de fevereiro de 2025

três pessoas adotaram um gato depois de conhecer o Fausto. nunca tinham tido nenhum gato e diziam: «mas tem de ser assim como este». sentindo falta de atualização de fotografias nas redes sociais, há quem me ligue ou me envie mensagem a perguntar por ele. por ele, não por mim. os meus amigos perguntam pelo Fausto no final dos telefonemas. é curioso como, quem o conhece, passa a falar da «ligação» que temos. curioso sobretudo porque me surpreende sempre que, com toda a sua singularidade, o amor seja tão incontestável.



26 de janeiro de 2025

vi THE DEAD há muitos anos, mas, na altura, quando o filme acabou, tive a sensação que me escapava o principal. o vazio torna-se mais importante nesses momentos, fala sem que possamos escutar, mostra sem que possamos ver. este fim-de-semana, por causa de THE ROOM NEXT DOOR, voltei a ver o filme, e percebi que quando escrevi que para Almodóvar a bondade era o fundamental, não fui tão longe quanto poderia ter ido. THE ROOM NEXT DOOR pode bem ser um filme feito de citações, um filme homenagem, como em certos momentos parece tornar-se mais evidente. julgo que a bondade — que nele transgride o habitual —, a generosidade entre as personagens, a sua amabilidade constitutiva, é uma citação de Huston e uma bastante nostálgica. a razão para que não tenha podido compreender o filme quando, aos dezassete anos, o vi pela primeira vez, tornou-se clara: não se pode perceber esta história sem ter uma experiência do tempo e da morte.
no primeiro plano, à noite, as janelas de uma casa estão iluminadas por uma luz amarela quente e uma carruagem puxada a cavalos, conduzida por um cocheiro, passa a toda a velocidade de um lado ao outro do ecrã sobre um tapete de neve. o nome de uma cidade e uma data emergem da escuridão: Dublin, 1904. não sei porquê, pensei imediatamente em 1984. em 1984 eu tinha oito anos e adorava blusas com folhos, ténis bota brancos e as bandas desenhadas da Luluzinha, que tinham na capa uma menina de caracóis a boicotar a casota de brincadeiras dos rapazes, onde não a deixavam entrar. a Apple lançou o primeiro computador pessoal nesse ano. a Tina Turner cantava What's Love Got to Do with It e eu achava que entendia tudo e queria ser como ela. entre aquele jantar de tradição anual na casa quente com cheiro a ponche e a cera a arder, onde cada um faz, com dedicação e nervosismo, aquilo que dele é esperado, e as danças se encomendam enquanto a neve continua a cair lá fora, acontece apenas oitenta anos antes de eu pedir para ficar a ver a Noite de Cinema na televisão sozinha. o que aconteceu, perguntei-me, em tão curto período de tempo para que o mundo tenha mudado tanto?
dia 27 de janeiro é o aniversário da libertação de Auschwitz. este ano comemoram-se oitenta anos sobre a data. Shahak Shapira, um jovem judeu a viver em Berlim realizou recentemente um projeto que reunia selfies de turistas que visitavam o local com as respetivas legendas e hashtags, encontradas no Facebook, Instagram, Tinder e Grindr. todas as selfies publicadas no Yolocaust tinham sido tiradas no Memorial do Holocausto, em Berlim, e em vários campos de extermínio nazis. a primeira fotografia que Shapira publicou, mostrava um jovem a saltar sobre as lajes de betão, com a legenda “Jumping on dead Jews @ Holocaust Memorial”. numa semana o site teve mais de dois milhões de visitantes, incluindo os autores das fotografias. o autor desta escreveu a Shapiro dizendo que “The photo was meant for my friends as a joke. I am known to make out of line jokes, stupid jokes, sarcastic jokes.” depois, há cerca de um ano, uma turista foi detida pela polícia por ter feito a saudação nazi enquanto posava para as fotografias do marido junto ao portão do campo de concentração de Auschwitz. na altura com vinte e nove anos, foi acusada de promover o nazismo e multada. deu-se como culpada, mas descreveu o ato como uma brincadeira ingénua

13 de janeiro de 2025

"A narrativa leva-me para a morte." 

Christa Wolf, Cassandra.

9 de janeiro de 2025

de manhã a luz estava bonita. um lastro de madrugada ambicioso e plúmbeo manteve-se muito tempo suspenso, fazendo a noite prolongar-se com um manto benigno e doce. não havia um fio de azul no céu. o trânsito estava compacto, parado, bloqueado como se fosse hora de ponta, que não era. abandonei a esperança de chegar a horas ao compromisso que tinha e procurei conforto na cadeira. chovia muito, havia caudais de água a correr na beira dos passeios, poças do tamanho de pequenos lagos ao ponto de ser preciso contornar a rua, e muita, muita chuva, daquela chuva que bate com força nas pedras do chão e se eleva. tanta chuva que, mais tarde, depois de caminhar umas horas, a pele das minhas botas absorveu a água deixando o interior húmido. vi nuvens ameaçadoramente baixas, redondas como um dirigível, tive a sensação de a qualquer instante irem rasgar-se no telhado da assembleia, por onde passei de autocarro. havia esta sensação voraz no ar de devastação, de catástrofe, para que a intempérie e o trânsito concorriam. enquanto o semáforo preenchia a água de reflexos vermelhos e o vento esfomeado, ansioso por as ver de ossos, arrancava às tílias as últimas folhas, do lado esquerdo, quatro homens do tamanho de gigantes, com fatos iguais brancos e azuis e com capacete, subiam lentamente, em uníssono, para cima de quatro motas alinhadas lado a lado, brancas e azuis, que tinham luzes brancas e azuis acesas. com os fatos densos e redondos, sem rosto, pareciam bonecos animados. havia uma insólita, talvez equívoca, beleza na sincronia do conjunto e no brilho aquoso das luzes, um pouco como acontece com a natação sincronizada e com as luzes de Natal. na moção arrastada do autocarro passei por eles hipnotizada, seguindo os seus ínfimos gestos com o olhar depois de se equilibrarem em cima das motas sem mais se mexerem, com as mãos cravadas à volta dos manípulos, e rodei a cabeça na sua direção até desaparecerem. só à noite percebi que, do lado direito, ia a passar um morto.

7 de janeiro de 2025

outra coincidência dos últimos tempos: revi O SOM DO NEVOEIRO e duas vezes, a primeira porque o A. conseguiu um torrent, a segunda na cinemateca. pelo meio, ficou também disponível no filmin. no dia em que descarreguei o filme, revi finalmente a cena em que ele lhe toca nas mãos e ela se entrega, deixa-se cair no abraço ardente dele e a fusão dá lugar ao nevoeiro (cuidadosamente, mantendo os limites da conveniência, ele toca-lhe na mão e depois fica quieto, é ela que não só lhe devolve o gesto, como o intensifica). depois, este fim-de-semana, vi o ALL WE IMAGINE AS LIGHT e encontrei praticamente a mesma série de fotogramas, mas no sentido inverso. parecem ser os fotogramas correspondentes à mesma realidade em duas dimensões opostas, e em que esta seria uma dimensão paralela a coexistir com a outra mas sombria, um lugar de rutura, de inconsistência, cataclismos, que pode engolir-nos, e de onde temos de nos salvar pela dureza e pela violência. uma espécie de espelho negro, como no Stranger Things: o fantasma do marido dela — o marido que já só existe na imaginação dela — pega-lhe na mão e beija-a apaixonadamente, deslizando pouco a pouco para o pulso e finalmente para o braço. ela recebe os beijos e quebra, desfaz-se a chorar. mas, quase impercetivelmente, o olhar transforma-se. a espera infindável materializada na imaginação passa a corte. vemos instalar-se uma fissura. o casal desaparece subitamente substituído pela paisagem noturna do lugar onde ela está, o mar ao fundo. ouvimo-la dizer: Stop. I don’t want to see you. Ever again.
Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
(…). 

Daniel Faria

5 de janeiro de 2025

“… sinto, por fim, que sou capaz de cunhar todos os meus pensamentos em palavras.”

Virginia Woolf
Diários, 20 de abril de 1925. 

Mrs. Dalloway estava em impressão. 

4 de janeiro de 2025

"On fera filer l’allemand sur une ligne de fuite ; on se remplira de jeûne ; on arrachera à l’allemand de Prague tous les points de sous-développement qu’il veut se cacher, on le fera crier d’un cri tellement sobre et rigoureux. On en extraira l’aboiement du chien, la toux du singe et le bourdonnement du hanneton. On fera une syntaxe du cri […]. Emporter lentement, progressivement, la langue dans le désert. Se servir de la syntaxe pour crier, donner au cri une syntaxe."

Gilles Deleuze, Félix Guattari, Kafka. Pour une littérature mineure.