5 de maio de 2015

só gosto das manhãs. pela hora do pequeno almoço, é a pureza da luz que raia, por toda a parte. faço sempre duas torradas e bebo uma chávena grande de café fraco e, enquanto as torradas fazem, vou à casa de banho por creme na cara, ao espelho. há uma serena ordem a presidir à rotina, tudo se passa como se a manhã fosse eterna. e eu não me apresso. por vezes ligo o rádio para ouvir música clássica e desligo ou mudo de estação quando aparecem pessoas a falar. por não serem vorazes, as manhãs não exigem que sejamos engenhosos, como acontece com as tardes, sobretudo com o meio da tarde, onde se encontra sempre um poço seco à beira do qual ouvimos um coro de vozes, frias como facas, que nos tentam a lá cair. manhãs de nevoeiro são comoventes, como a nudez ou a morte e nenhuma outra coisa como uma manhã clara se encontra além da banalidade. a pura razão que as planifica, a sua mecânica lenta, sem milagre, faz delas universos plenamente passivos, onde o turbilhão impudicamente se levanta e ataca, como um animal excitado.

4 de maio de 2015

Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.
Que as traças o devorem sem deixar
o mais débil vestígio de tua humanidade.
O que pensas do amor, da vida e da morte
não interessa a ninguém.
Todos estão demasiadamente distraídos
e preocupados com as precárias
liberdades do corpo e as metamorfoses da alma.

Digam o que disserem os graves e os cínicos
os bêbados e os bastardos
os que te cumprimentam todas as manhãs
com mentirosa cordialidade...
— Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.

Francisco Carvalho

3 de maio de 2015

Pouco a pouco, anunciada por um caos de muralhas derrubadas, esgotos a descoberto, pardieiros, fábricas mal acabadas de construir e já em desuso - destelhadas - com os esqueletos de ferro contorcidos e contra a luz cada vez mais intensa e encadeante - restos de pequenos burgos medievais e manchados como por uma devorada humidade tropical - apareceu uma cidade interminável. Ao fundo brilhava o mar. O ar estava carregado de um fedor indefinível: merda, gases, esgotos, mas também terra adubada de hortas, limões podres, enxofre e algo perdido, sufocante, que não era senão a poeira da pobreza.

Pier Paolo Pasolini, Petróleo.

2 de maio de 2015

subitamente sinto-me vazia, como quando chega a felicidade. debaixo de um sol de verão que arde num céu encoberto, os catos secam na varanda, como quando eu não estava. quando os sinos desatam a repicar, reparo em pessoas que passeiam o cão no largo, e que também o largo está vazio. está tudo vazio, pois o olhar delas é absorto, tão absorto que creio nem ouvirem os sinos ou se apercebem do vento forte que sopra no largo em todas as direções. não tenho nada. o largo vazio sou eu, sem temor e sem júbilo. sou o espaço antes ocupado por um enigma, que desapareceu depois de, com sede, ter vomitado no deserto. da indissolúvel quimera dos apetites, onde, por desconhecer a resposta a perguntas sem solução, se oculta a monótona matriz da cobardia,

me ergo, limpa.

1 de maio de 2015

Há na ironia uma pretensão insuportável: a de pertencer a uma raça superior, e de ser a propriedade dos mestres (um texto famoso de Renan di-lo sem ironia, dado que a ironia acaba depressa quando fala de si própria). O humor reclama-se, pelo contrário, de uma minoria, de um devir-minoritário (...).

Gilles Deleuze, Dialogues, 1977.
When I cannot see words curling like rings of smoke round me I am in darkness—I am nothing.

Virginia Woolf, The Waves.

29 de abril de 2015

Anoto este facto, entre outros, no meu caderno, para futuras referências. Quando for grande terei sempre comigo um espesso caderno de notas com numerosas páginas metodicamente dispostas por ordem alfabética. Aí escreverei as minhas notas. Na letra B, haverá por exemplo "Borboletas brancas reduzidas a pó". Se no meu romance tiver que descrever um raio de sol num parapeito da janela, irei ver a letra B e lá encontrarei as palavras "Borboletas brancas reduzidas a pó". Há-de ser-me útil.

Virginia Woolf, As Ondas.

28 de abril de 2015

Tu es tellement vivant qu'ils croient que tu n'aimes pas la vie: trop vivant pour plaire.

Christian Bobin, La Présence pure.
Silencieuse, étrangère au silence et non pas silencieuse, ne parlant pas, cette présence.

Maurice Blanchot, L'attente, l'oubli.
uma amiga conta-me ao telefone que a segunda feira é difícil para ela. sem a interromper, ouço-a falar de um estado de torpor de que não consegue libertar-se e que, diz, normalmente desaparece no dia seguinte, tão inexplicavelmente como apareceu. «fico sentada na cama apenas a olhar mas sem pensar. vejo as mãos, olho para as mãos; vejo a dobradiça, olho para a dobradiça. e o tempo passa, assim, até que a certa altura percebo que o tempo passou e eu não me mexi». aterrorizada, enquanto a oiço revejo-me de pé à entrada da sala, minutos antes de receber a chamada, sem conseguir dar um passo para a frente ou para trás embora perfeitamente consciente da indolência, ao longo de, percebi já ao telefone com sobressalto, quase uma hora. há qualquer coisa de reconfortante em não estar louco sozinho. é como naquela velha máxima, «vamos ao fundo mas vamos todos juntos ao fundo.»
estou a tomar o pequeno almoço quando percebo que esse torpor está a chegar e olho através da janela, procurando uma fuga. um raio de sol maciço pousa sobre a roupa branca no estendal e faz ricochete na peça de metal de uma das molas. o azul do céu faz lembrar um dia de verão, brilhante e pesado. não se ouve nada. quando volto a ter consciência de mim, reparo que sorrio tenuemente, mas que o nó na garganta se mantém. como posso honrar tanta beleza?
já no final do dia, decido enfim sair de casa. levo um livro na mão. é um livro que quero muito ler, que tenho medo de ler. já me aconteceu o mesmo antes com outros livros que, tal como este, apesar de terem sido escritos por outrem, existem em mim. talvez tenha medo de ser desapontada. talvez não queira que o escritor tenha falhado onde eu falho e vou protelando a abertura das páginas enquanto seguro o livro nas minhas mãos com o coração extasiado, como quando vamos ao primeiro encontro de um amor que acaba de começar. e então ele diz «Olhei para a fachada, a fachada, a fachada» e eu resplandeço. escreve «De repente escureceu, como quando cai uma bátega» e tenho vontade de rir, porque a perfeição dá vontade de rir. chama a um poema BREVE PAUSA NO CONCERTO DE ÓRGÃO* e sou eu. estou sentada no café numa hora de vazio, leio nesse livro «De repente escureceu, como quando cai uma bátega» e aquilo é a minha jangada em mar alto (alto porque não tem fundo, ou não sei se tem, mas mar não deve ser porque não vejo água e o horizonte é apenas isso, horizonte). corro para casa, exaltada, feliz, como se tudo fosse possível. mas para que quero eu tanto escrever? aqui há tempos fui a uma conferência onde um escritor dizia que só acreditava em escritores que publicam, que mostram, que copiam, que procuram dialogar ativamente com o seu tempo e com os seus contemporâneos. na altura aquilo deixou-me a pensar «se calhar é isso que me faz falta, ser um pouco menos invisível», mas nunca cheguei a alterar alguma coisa, na verdade, creio que nem sequer cheguei a querer alterar. gosto deste pequeno buraco húmido onde não vem ninguém. não tenho a força necessária para deixar um livro no mundo e está bem assim. não quero usar a escrita para nada. qualquer ruído me é insuportável e um livro não pode ser publicado sem ruído. é como se caminhasse precisamente em sentido contrário a esse: quero escrever sobretudo quando até eu deixar de ler o que escrevo. sempre achei que mal o esperasse, o ímpeto desapareceria mas, pelo contrário, parece agravar-se. aconteceu por acaso, nada disto se presta à compreensão. como um pintor que procura acertar na cor, mantenho simultâneas a dificuldade e o desejo de dizer. existe em mim uma correspondência perfeita entre a asfixia e a libertação, entre a agonia e a aurora. seja como for, é a única vontade, a razão pela qual ainda me vou interessando por perceber alguma coisa do mundo e por permanecer nele. por pobre razão que seja, não precisa de validação.

*Versos e título de poemas de Tomas Tranströmer.

27 de abril de 2015

"Escrever é estar aberto à desmesura; portanto, aquele que escreve nunca estará sozinho o suficiente, e enquanto escreve nunca haverá silêncio o suficiente em torno dele, e a noite nunca será noite o suficiente."

Franz Kafka, Cartas a Felice.
um delírio seco
de grande precisão
e delicadeza
oferece resposta
à saudade lânguida
e um esquecimento esplendoroso
inunda a vida
tranquila.
vou começar a fazer coleção

Tomas Tranströmer nasceu em Estocolmo a 15 de abril de 1931. 
(...).
Vive atualmente numa ilha, distante dos olhares do mundo.
A mulher é infinita.

Yasunary Kawabata, A Casa das Belas Adormecidas.

26 de abril de 2015

Nada muda de forma como as nuvens, a não ser os rochedos.

Victor Hugo