27 de novembro de 2013

Coisas sobre o funeral da minha avó:

O Sr. Martins subir até à mortuária num passo muito lento e começar a chorar agarrado a mim. Não por não se lembrar de mim (não se lembrava), mas porque também a sua vida está a chegar ao fim. Algo de amargura nos seus olhos, uns olhos de criança. Não falava. Não conseguia mover-se. Achei bonito que ninguém o tivesse impedido de não conseguir mover-se.

Nunca consegui suportar o toque das mãos frias dos mortos. Mas não foi assim com as mãos da minha avó: não as conseguia largar. Talvez porque, apesar de inertes, lembrava o seu calor.

Não querer que ninguém me desse os sentimentos.

Apetecer-me expulsar toda a gente da casa mortuária. Queria enterrá-la sozinha, com as minhas mãos, e longe de todos os olhares.


Coisas sobre a morte da minha avó:

Primeiro, o telefonema. O telefonema que se espera. A voz: «É melhor vires.» Levantei-me, peguei na chave do carro, e fui.

«É provável que ela não te reconheça», disse a voz. O que é que se sente quando se ouve isto? Não sei dizer. Um silêncio cuja qualidade não sei identificar.

Um quarto de hospital, um corpo que não reconheci. Beijo-a no rosto, os olhos dela muito azuis e muito fixos nos meus, como que para substituir a fala que tinha desaparecido. «Sabes quem eu sou?» Um sorriso.