4 de maio de 2023

Eu tenho 47 anos e nunca ganhei €1000,00, nunca recebi um subsídio de férias, nunca tive um contrato, respondi. A audiência devolveu um silêncio pesado e embaraçado ao meu rosto impassível. Era a resposta à lamentação de um dos amigos com quem conversava, e se queixava de um aumento no salário de "pouco mais de €230,00" nos últimos cinco anos. Mas tens casa própria, não é?, e Mas tens uma casa tua, não é?, perguntaram em uníssono, o que me impressionou. A minha amiga, que acaba de comprar uma casa e se prepara para concluir um doutoramento, foi a primeira a arrancar com a frase de forma peremptória, atirando os ombros para trás e as mãos para os lados do corpo, como se estivesse a dizer também «Pára tudo», embora, provavelmente sem que ela soubesse, o terror nos seus olhos se sobrepusesse ao leve sorriso que forçou para acompanhar o gesto engraçado. O meu rosto impassível voltou a responder e as cores abandonaram os deles. Felizmente as soluções começaram logo a aparecer. Mas tu podes fazer um doutoramento e ter uma bolsa. São quatro anos. Não queres?, era novamente a minha amiga a falar. Pois!, disse o meu amigo, que parecia achar a ideia inequivocamente adequada. Vocês trabalham oito horas?, perguntei. Oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de sono, essa grande conquista de 100 anos!, respondeu o meu amigo, que é evangelista do PCP. Sim, respondi. Mas vocês trabalham oito horas? A minha amiga levantou lentamente o pé direito, pousou-o no banco de jardim ao nosso lado e apoiou a mão na perna. Olhou para o lado, para fora da conversa, para o vazio, e respondeu num tom nostálgico que tinha estado a trabalhar no fim de semana. O meu amigo anuiu rapidamente que, de facto, trabalha muito mais do que oito horas, muito, muito mais. Um pouco a medo, pois não saberia o que dizer se me respondessem que era a única pessoa no mundo nessa situação, prossegui também: Eu sento-me à secretária às 9h e termino pelas 23h com uma pausa de 20 minutos para almoçar. A seguir vais estudar ou escrever? Os meus amigos olharam de soslaio um para o outro, discretamente para o chão, e decidiram atenuar o seu desalento. Então és pobre!, disse o meu amigo com um riso cheio e sonoro, e, seguido pela minha amiga, abraçou-me com pancadinhas afáveis nas costas elogiando a minha gargalhada única e a beleza física que ainda mantinha aos 47 anos. Como seria possível de outra maneira? Devolvi-lhes um sorriso nipónico e acompanhei-os ao mudarem de assunto. Ao voltar para casa, revia na minha memória esta conversa e estes gestos quando me lembrei de outra amiga que, um dia, encontrando-me a trabalhar atrás do balcão de uma loja após ter passado por um momento de exposição pública por ter estado, havia pouco tempo, ligada a um relevante projeto artístico, me disse, igualmente estarrecida, ao transferir dinheiro da carteira dela para a minha mão para pagar o que lá tinha ido comprar, que depois de ter feito certos trabalhos, já não podia fazer trabalhos destes. Não percebi logo o que ela queria dizer, fiquei perplexa e senti-me ofendida, perguntei porquê. É desprestigiante, respondeu. A custo disfarcei uma gargalhada monumental no momento, mas não parei de pensar naquilo nos dias a seguir, creio que cheguei mesmo a escrever sobre isso na altura num caderno qualquer, que depois deitei fora ou perdi. O que é preciso para que alguém possa dizer-nos uma coisa destas, um sentimento de profunda amizade ou o opróbrio ignaro e pateta do privilégio? E porque me tinha sentido ofendida, com quê? Porque, perante o que confere prestígio, o esforço gigantesco que cada uma das coisas que faço exige é invisível e, por isso, insignificante. O insignificante e o essencial estavam ao contrário, como diz o poeta, o primeiro sempre a ameaçar o segundo. Construí, por esses dias, intermináveis e dilacerantes discursos sobre a vida das pessoas como eu, que apesar de estudos e alguns talentos tinham famílias sem recursos, meios ou património, contas para pagar, filas de histórias de abandono, abuso e violência, doenças crónicas pelo meio e isolamento, ao contrário da minha amiga, ao lado de quem caminhava nas manifestações, e que, aos 20 e poucos anos, vendia a primeira casa, oferecida pelos pais, para ir viajar. Enquanto essa história antiga se misturava com a conversa de hoje e com pensamentos sobre a relação entre o prazer e a partilha genuína de intimidade lembrei-me do amigo que talvez me entendesse e da sua frase categórica cuja limpidez me aturdiu: Preferia não me comover comigo próprio. O que importa é depararmo-nos com a beleza e saber vê-la, não é?


 
Forough Farrokhzad, A Casa é Negra (1963).