29 de junho de 2016

Rafael abre a porta para a rua e um raio de sol ofusca-lhe os olhos. Do outro lado da estrada, o vento sopra em direção a ele, ou pelo menos assim lhe parece. Um carro preto passa em grande velocidade. É manhã muito cedo. Não sei para onde vai Rafael. Está a sair de casa, tira os óculos, esfrega os olhos doridos pela luz, volta a colocar os óculos e desce o primeiro degrau. Há sete degraus para a rua. Ao sétimo degrau, Rafael olha para trás, para a porta de casa. Tem a sensação de se ter esquecido de alguma coisa mas não consegue lembrar-se de nada. Fica um momento parado no passeio, voltado para a porta de casa, coça a testa e ajeita os óculos ao nariz. Não se lembra. Depois avança para o lado esquerdo e sente frio. No entanto, é verão. É cedo demais, pensa. É cedo demais nesta manhã e é cedo demais para este arrepio de frio sombrio. Angústia, de onde vem esta angústia? Sacode os ombros, avança pela rua, cumprimenta a dona do supermercado, Bom dia Dona Eduarda, o cão do Augusto que veio sozinho à rua, Olá Berlinde, mas não diz nada, diz tudo para dentro, pois nenhum deles o viu passar. Dirige-se para o café do Júlio, na estação, o único que está aberto àquela hora. Entra e deixa-se ficar ao balcão, Júlio traz-lhe um café e pergunta-lhe qualquer coisa a que ele responde que sim mesmo sem ter ouvido nada. Procura a carteira no bolso das calças e percebe que não a tem. Hoje é por conta da casa, Rafael agradece e pega na chávena, senta-se sozinho numa mesa, não há mais ninguém no café. Tira um maço de cigarros do bolso da camisa e de dentro do maço, que está cheio, um cigarro, que acende depois de ter dado um golo no café. Nesse preciso momento, um odor forte a marmelos atinge-lhe como um choque as narinas. Que estranho. Que confusão, pensa. Não nascem marmelos senão daqui por dois ou três meses, já quase na entrada do outono, quando o sol de verão se enegrece e cepas de amoras rebentam à beira de noites frescas. Dá mais um golo no café e logo a seguir outro. Levanta-se para acabar de fumar o cigarro à porta. Na verdade quer ir espreitar a rua, ver de onde possa vir o cheiro. Apercebe dois vultos ao fundo na estação, um sentado, outro em pé a falar ao telefone. O céu absorve tudo no seu azul forte sem uma nuvem. Passam um carro cinzento e um branco, completamente fechados e a grande velocidade. O verão chegou finalmente, pensa. Sem que perceba porquê, a ideia não o apazigua. Talvez tenha sido o vento frio de há pouco, ocorre-lhe. 'té logo senhor Júlio e atravessa a estrada para descer a avenida a pé. A Margarida passa do outro lado e finge que não o vê. Que gira, porra, pensa, reparando nos calções brancos muito curtos ou, mais precisamente, no contorno da púbis que os calções acentuam. Quando ela fica de costas, Rafael vê o cabelo solto castanho tocar-lhe na cintura e imagina-se a despi-la. Já na entrada da avenida, volta a olhar para a frente. Os castanheiros e os plátanos adensaram-se, que frescura, tanto verde. Um cão amarelo passa por ele a cheirar os canteiros do jardim e a base das árvores. Quase a meio da avenida, o seu olhar é atraído para a esquerda onde vê um denso nevoeiro subir para a estrada. Estou a ver mal, pensa. Se calhar não é nevoeiro. Mas é nevoeiro. O rio está tão longe, não pode ser, a manhã já vai alta. Onde está o sol? Rafael espreita pela copa das árvores, o sol brilha, amarelo e quente. Nesse momento, um vento forte empurra-o, Rafael desequilibra-se e vê aos seus pés folhas douradas secas e em grande número. Volta a olhar em frente, caminhando em direção a ele, o nevoeiro é tal que já nem se vê nada a partir dele. Como é belo, pensa. Parece uma montanha. Uma montanha que realmente vem até nós. Que raio de dia, o que se passa? Ainda estou a dormir? Volta para trás evitando o bloco de nevoeiro, um pouco zangado. Altas sobre o muro, as sebes da casa dos Patrocínio esclarecem-no. Todas elas estão em flor, flores de primavera, flores de verão, flores de outono, flores de inverno, cada uma das sebes, lado a lado, as ostenta. Daqui não há volta. Os segredos que não foram desvendados aninham-se e a vida passou a ser uma terrível confusão de estações. Uma rosa tem em si todas as rosas, como se fosse a última e não a primeira vez que visse uma.