18 de outubro de 2014

O consultório do meu pediatra tinha as paredes negras.
A secretária dele, diante da qual eu me sentava numa cadeira ao lado da minha mãe, com um bloco cheio de desenhos da sala de espera na mão (que não queria mostrar a ninguém) era de vidro, e sobre ela, um candeeiro largo e redondo iluminava toda a sala com uma luz amarela suave. Ao lado do divã havia outra luz, na extremidade de um candeeiro de pé alto muito fino, que ele deslocava sobre o meu corpo. Havia uma balança de onde eu descia sempre para ouvir que tinha de comer mais e usavam-se espátulas de madeira para ver a garganta, que davam vómitos. Lembro-me dele, simpático e careca. Lembro-me do nome dele. Lembro-me da voz dele. De tudo isto me lembro porque numa das paredes do consultório havia um poster do The Kid.
Era um poster a preto e branco absolutamente gigantesco pelo qual fiquei hipnotizada no momento em que o vi pela primeira vez. Duas pessoas, um adulto e uma criança, estavam sentadas no degrau de uma porta. Lado a lado, apertados na ombreira para conseguirem caber os dois. O meu pediatra era a-pessoa-que-tinha-o-poster. Um mago, um sábio, um alquimista, na sua caverna negra de luz suave e quente, com voz doce e grave, que resolvia tudo. Apercebendo-se do meu fascínio, pois desde que chegava ao consultório arranjava sempre maneira de ficar a olhar para as figuras no poster, um dia, estava eu deitada no divã, perguntou-me sorridente, com um olho virado para mim e o outro para a minha mãe: «Achas que estão tristes ou alegres?» A pergunta deixou-me perplexa e não respondi. Pensei naquilo muito tempo e durante muito tempo voltei ao consultório sem saber a resposta. Para meu grande alívio, ele nunca mais voltou ao assunto. O meu problema não estava em achar que aquelas pessoas pudessem estar imersas numa ou noutra dessas emoções, permanecendo contudo indecisa sobre elas. O meu problema era justamente achar que não estavam tristes. E que também não estavam alegres. Portanto, se não era tristeza mas também não era alegria, essa outra coisa, o que era? Estava no olhar e no corpo deles, adulto e criança, maltrapilhos e sujos (não como quem tivesse acabado de jogar à bola mas como quem era muito pobre). Era uma dádiva. E era a única coisa em que eu queria pensar.