9 de fevereiro de 2011

a colher cai sobre a mesa
uma mancha de água cinzenta alastra na toalha
uma gota aloja-se na minha pele

mergulho

sabe ao mar dos dias
onde viajo numa escuridão insuficiente
intrigada por todas as que sou

falo

pronuncio um só nome para seduzir
desprendida e morta, já morta
mantenho o chá sobre a mesa.

12 de janeiro de 2011

Uma língua sem linguagem

A vaga assome e eu procuro por toda a parte a forma que cresce em mim e cuja força se estende no espaço muito para além de mim, muito para além da casa, das ruas, da cidade e cria um outro mundo para além do tangível e inteligível. Sou uma vaga de labaredas poderosas que ninguém senão os loucos sabe navegar. Remonto do primeiro mergulho e vejo o meu corpo transformar-se rapidamente nesse animal sedutor que caminha entre os destroços vivos dos poetas, repetidos até à exaustão. Oiço tudo, vejo tudo. A rapidez da vida absorvendo cada instante não-vivido para a morte. Eu não morro, já morri, agora sou apenas o instante, veloz como ela, e em breve não me restará outra língua para além do grito que ninguém poderá ouvir.

10 de dezembro de 2010

Manoel de Oliveira - Acto da Primavera (1963)