6 de outubro de 2014

as pessoas empurram-se umas às outras na rua para passar em espaços exíguos. vão de olhos no chão, não os levantam. nunca param, têm sempre pressa, mesmo quando estão paradas. hoje por exemplo, quando para finalizar uma troca de palavras quis agradecer uma informação a alguém muito amável, já a pessoa me tinha voltado costas. tenho sempre a sensação que cortaram uns milésimos de segundo à fita. na rua, espantam-me o sol, o nevoeiro, e a fealdade. havia aquelas palavras, o estado da nação. o estado da nação é este. ignoramo-nos. votamos um ostensivo desprezo uns aos outros. circulamos dentro de um minúsculo território privado e deixámos de seguir as estações. guia-nos a ficção do poder e o nosso faro excecional conduz-nos aos rabos uns dos outros. são evidências. tenho 38 anos e os dentes a desfazer-se. outra evidência. desde há uma semana revejo Lost, lost, lost de Jonas Mekas. interrogava-me nos primeiros dias porque me via tão identificada nesse filme. não conseguia perceber, a importância da questão avolumou-se. tornou-se enfim claro quando pensei na língua. já não falamos a mesma. é necessário dizer que toda a forma de exílio procede de uma escolha. é necessário afirmá-lo, dizer estas palavras. uma escolha. porventura uma renúncia, inquestionavelmente um fazer, porque o que existe não passa de aqui nem de agora e isso inclui a memória. guardo a minha para as amizades que se desfizeram como castelos de areia depois de acreditarmos que seria para sempre. amanhã entendo-me. hoje não. há coisas mais interessantes do que isso para fazer. o inverno está próximo.