20 de setembro de 2014

Ao longo dos dias que se seguiram, as flores continuaram a secar. Eu passava por elas, olhava-as, não lhes tocava. Como uma térmita, voltei-me para a destruição da casa. Percorrendo escrupulosamente a galeria das coisas que lhe pertenciam, levei ao limite o requinte dessa demolição e  quando a casa regressou às fundações não mais me movi. Enquanto contemplei a ausência de destroços, o calor que dela emanava entranhou-se, como ácido. E então era branco. Creio que era isso que procurava. Mas as fundações continuavam lá. Nunca houve silêncio. O que eu via era absoluto mas o que eu ouvia era contagioso. Foi daí que nasceu a minha linguagem e por isso sei que da resistência que cede, nasce o indemonstrável. Porque a ninguém se prova que há manhãs sem nevoeiro. O nevoeiro é mais sincero. Impossivelmente, restam os intervalos inúteis e a insolência mostra-se contingente, como as casas. O perigo é a beleza e o nada uma necessidade arbitrária. A ilusão é uma objetividade esforçada, um engenho de onde brota a água imunda do nascimento e de cujo ultimato somos perversos guardiões. A minha linguagem abandonou-me no mesmo instante em que nasceu. Sou dela uma imperturbável órfã. Nenhuma violência nisto. Ou talvez a impassibilidade seja fruto da violência, não me é interessante saber. Quero ir para perto da água, ficar lá no fundo, renascer. Um paradigma é um instrumento de perceção, como o hábito ou a desonra. Aí a velocidade pode ser fatal. Como a desonestidade nos sonhos. Mas o meu instinto tem espinhos, gozo de uma memória criminosa, invulgar. Passo a vida a refutá-la. Sem jogos. Oiço uma voz sem palavras, tem voracidade, qualidade do que é solitário. Brinco muito, às bonecas. Os movimentos são involuntários mas o que eu vejo não. Perante o possível, a alegria é um insulto, uma rudeza: na ilha deserta, o pudor é exótico.